Lugar de Mulher: Ciência e Sindicalismo
Com Geovana Reis, professora, pesquisadora e presidenta do Adufg-Sindicato, falamos de universidade, luta coletiva e da autonomia de ocupar espaços de poder que nunca foram reservados às mulheres.
Por que a universidade é assunto de autonomia
As universidades brasileiras têm maioria de mulheres na docência, mas os cargos de poder seguem ocupados por homens. 58% dos docentes do ensino superior são mulheres, e só 21% chegam a cargos de chefia e decisão, desigualdade ainda maior para as mulheres negras, que acumulam invisibilidade, racismo e precarização. Um espaço que cobra dedicação e nega reconhecimento.
Márcia Pelá recebe Geovana Reis, professora, pesquisadora feminista e presidenta do Adufg-Sindicato, a entidade que representa docentes da UFG, da UFJ e da UFCAT. Uma trajetória que une ciência, sindicalismo e militância, e que mostra que a luta por melhores condições de trabalho é também luta pela democracia, pela igualdade e pela autonomia feminina.
“A luta sindical pode e deve dialogar com os grandes temas sociais e políticos.”
Uma construção na luta
Geovana se diz uma mulher que foi se constituindo na trajetória de luta e na presença em espaços coletivos. Vem do interior, de uma cidade que hoje é do Tocantins, e das comunidades eclesiais de base, aquela igreja da libertação onde teve, segundo ela, as suas primeiras lições de justiça social e o incômodo com as injustiças.
Na universidade, encontrou o movimento estudantil de forma organizada e o feminismo de forma mais estruturada. Foi presidente da União Estadual dos Estudantes e diretora da União Nacional dos Estudantes no fim dos anos 1980. Depois vieram a docência, o Cintego, a rede municipal de Goiânia e a filiação, até hoje, ao Partido Comunista do Brasil. Amorosa no processo, ela recusa o estereótipo do militante raivoso e carrancudo.
“Fui me constituindo ao longo da minha trajetória de luta e de presença nos espaços coletivos.”
Foi também na universidade que se incomodou de forma mais nítida com o machismo cotidiano, com as piadinhas que, além de reveladoras, disseminam. E foi ali que entendeu, na prática, que para a mulher ocupar espaço na política é sempre mais difícil do que para os homens.
A carreira que as mulheres não terminam
Na universidade, elas são maioria, mas não chegam ao topo. Estudos mostram que, à medida que a carreira avança, as mulheres vão ficando pelo caminho: muitas param no mestrado e não fazem o doutorado por causa das relações, do casamento, do peso de não desarmonizar. Chegam menos mulheres à titularidade do que homens.
Do ponto de vista salarial, a carreira docente é equiparada. O que marca a diferença é o trabalho invisível, o trabalho do cuidado, a dupla ou tripla jornada que não é remunerada. São tantos atravessamentos, resume Geovana, que a igualdade formal não dá conta da desigualdade concreta.
“O que pesa é o trabalho invisível, o trabalho do cuidado, a jornada que não é remunerada.”
Ela lembra também de onde vem seu público. Sempre esteve nas licenciaturas, no noturno, com a classe trabalhadora, gente que trabalha de dia e estuda à noite, muitas vezes a primeira da família a chegar à universidade. Uma escolha de trajetória que casa com sua defesa da escola pública, gratuita, universal e laica.
Um tempo de retrocessos
Geovana é da geração que pegou a redemocratização, o período em que o Brasil ampliou direitos e incluiu pautas silenciadas. Por isso, confessa a perplexidade diante da virada que localiza em 2014 e 2015: pautas que pareciam superadas voltando, gente defendendo que a mulher deveria retornar ao lar, o fascismo avançando no Brasil e no mundo.
Diante disso, ela sente o desânimo, mas não se permite a paralisia. Fala de uma responsabilidade com as novas gerações, e se anima quando cruza com ex-alunos dando continuidade a algum tipo de movimento, no bairro, no trabalho, na luta. É o sinal de que a tarefa foi cumprida e segue de pé.
“Eu não me dou o direito de desistir, de ficar assistindo essas coisas acontecerem e não fazer nada.”
Foi de uma depressão diante desse mesmo cenário, lembra Márcia, que nasceu o próprio Autonomia Feminina, como compromisso de existir e resistir, e de ocupar um espaço que a extrema direita vinha tomando.
O bloco da ação: conhecimento contra a captura
No segundo episódio, a conversa enfrenta a pergunta de um milhão: como se organizar hoje, quando tudo parece fragmentado e as antigas estruturas, sindicatos e partidos, precisam se atualizar? Geovana observa que, hoje, é a pauta que junta as pessoas, e reconhece a importância das redes sociais, um terreno que o campo progressista ainda não ocupou.
Ela nomeia o pano de fundo: o sujeito neoliberal, fragmentado e individualista, e o adoecimento mental que vem junto. Alerta para a uberização do trabalho docente, já em curso na educação básica, com bancos de professores acionados como num aplicativo, sem carga horária fixa nem direitos, o que é um desastre trabalhista e, diz ela, humano.
“Quanto mais contato com o conhecimento, menos a gente é capturada por narrativas falaciosas.”
“Crie espaços e se movimente neles: nas escolas, nas faculdades, nos coletivos.”
“A gente precisa aprender a articular os coletivos. E aprender a ouvir também.”
Ocupar espaços que nunca foram nossos
Autonomia, para ela, é liberdade de pensamento e de crença, é poder defender os próprios pontos de vista e ocupar espaços de poder tradicionalmente negados às mulheres. Quando as mulheres subvertem essa ordem, incomodam e amedrontam, e acabam pagando um preço pelas escolhas que fazem, ainda que não se arrependam delas.
Por isso, diz, é preciso estarmos muito juntas, com as amigas que já fazem essa trajetória e com aquelas que desejam fazê-la. Toda mulher que chega até ela com esse desejo é uma responsabilidade. É hora de acabar com a misoginia internalizada, aquela que faz uma mulher enxergar a outra como ameaça. É disso que a ACCA fala: autonomia como condição coletiva.
“Quanto mais as mulheres se tornam autônomas e livres, mais elas incomodam.”
Assista aos episódios
Episódio 89 • Lugar de Mulher: Ciência e Sindicalismo, com Geovana Reis (Parte 1) Episódio 90 • Lugar de Mulher: Ciência e Sindicalismo, com Geovana Reis (Parte 2)Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.
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