Corpo e Canto: Arte que Transforma
Com aridan, cantora, compositora, poeta e mulher de aché, falamos da arte que nasce da rua e da roda de samba, e de por que cada canção é um chamado à autonomia.


Resistir cantando
aridan abriu o programa sem palavras de apresentação: abriu cantando um poema seu, de paixões e delírios, de raízes e de asas que a forçam em amor voador. É desse lugar, o da voz, que ela fala. E a pergunta que atravessa a conversa é essa: o que significa transformar dor em tambor, silêncio em poesia, corpo em território de luta?
No Brasil, as mulheres pretas ainda são as mais invisibilizadas no mercado da arte: ganham menos, têm menos acesso a editais e enfrentam racismo e machismo em cada palco. Mas é justamente dessas vozes que nascem os cantos que movem cidades. Márcia Pelá recebe aridan, que conhece há mais de vinte anos como Clécia: cantora, compositora, atriz, poeta, performer e produtora cultural, mulher de aché, que transforma a cultura goiana há mais de vinte e cinco anos.
“A arte, quando nasce da rua, da periferia, da roda de samba, é também política.”
Quem é aridan por aridan: o nome
A conversa começa pela pergunta que abre todos os episódios, e aridan responde como poeta. Transformar a vida em poema, fazer poesia do cotidiano, é o seu jeito de estar no mundo.
“Na poeira das palavras, tentando ser profeta, sou poeta.”
O nome artístico não veio à toa. aridan remete a um fruto sagrado do candomblé, uma fava usada em iniciações, na proteção do corpo e da cabeça e na quebra de males, um fruto que afasta os infortúnios. Desde que o adotou, conta, sente-se uma mulher afortunada. Escolheu pensando em poetas que a inspiram e que fazem poesia do cotidiano: Audre Lorde, Bell Hooks, Conceição Evaristo e Leda Maria Martins, esta também mulher de aché, rainha de Congada em Minas Gerais.
O nome chegou num momento de dificuldade, quando ela buscava se colocar não só no coletivo, mas também pensar a sua autonomia individual. E é aí que aridan formula, em uma frase, o que sustenta todo o programa.
“O coletivo só existe porque existe o indivíduo, e o indivíduo só existe porque o coletivo reconhece ele.”
Uma mulher de muitos nomes
aridan carrega vários nomes, renomeada muitas vezes. Nasceu Clécia Santana, e é assim que Márcia a lembra de mais de vinte anos atrás, quando a chamava para cerimoniais e para cantar o hino nacional na capela, em atividades culturais da cidade. Iniciada no candomblé, recebeu um nome ancestral ligado a Xangô, de quem é filha, com Oxum. E veio aridan para as artes, para os poemas, para as políticas públicas.
Cada nome é uma camada, e ela faz questão de que a chamem certo. No palco, não responde por Clécia. E não é Árida: é aridan, com toda a potência de história que o nome carrega.
Raiz multifacetada: classe, ancestralidade e território
Goianiense, aridan se reconhece como descendente de nordestinos. Os avós chegaram na época da construção dos trilhos do trem, e a Praça do Trabalhador guarda essa memória dos povos que vieram nas décadas de 30 e 40 para erguer a cidade. Avós alagoanos, avô pernambucano, o pai da Bahia, perto de Correntina, e ainda uma descendência cigana. De uma raiz multifacetada nascem também as suas muitas artes.
Ela diz ser uma das únicas da família a relembrar essa ancestralidade, e explica por quê recorrendo à sankofa: sancofear o olhar, com os pés voltados para a frente e a cabeça voltada para o passado, não como punição, mas como lugar de memória. Lembrar o que veio de excelência, o que não se deve repetir e as dores que também é preciso não carregar.
Periférica, da região oeste de Goiânia, dos bairros Vera Cruz, Solar de Parque e Goiá, aridan se lê pela interseccionalidade que aprende com Bell Hooks: mulher negra e da classe trabalhadora. É desse chão que vêm a sua poesia e a sua música, uma arte que não é arte pela arte, mas arte que toca e faz pensar.
A Pastoral e a consciência de classe
Aos dezessete, dezoito anos, aridan encontrou a Pastoral da Juventude do Meio Popular, e chama esse encontro de divisor de águas. Ali teve consciência de classe, entendeu-se filha de proletários e foi levada a se sindicalizar, a pensar em ser professora e a ver a educação como lugar de transformação.
Era a teologia da libertação, com projetos que uniam fé e política e que tratavam o próprio corpo como templo a ser cuidado e protegido. Um espaço que, como ela diz, abriu janelas e alargou o mundo. É o que a escola deveria fazer, defende: abrir a janela para quebrar ciclos, quebrar histórias repetidas.
O capital cultural da periferia também é arte
Se colocar como artista, diz aridan, é uma batalha diária, ainda mais vindo da periferia, onde ninguém te chama de artista. É preciso construir o portfólio, o capital cultural, até entender que o capital cultural periférico também é arte e cultura, contra a ideia de que só o erudito é o que vale. O funk, o samba de roda, o sertanejo, a raiz de viola: tudo isso é cultura.
A musicalidade vem de casa. Aos seis, sete anos, ela já tocava samba de colher com o tio e com o pai, e todo ano o pai comprava as fitas cassete de sambas-enredo antes do carnaval. O pai foi garimpeiro, pintor, pedreiro, um trabalhador sobrevivente; a mãe, costureira e empregada doméstica, aquele lugar reservado historicamente à mulher negra. Nas festas de família, no forró e nas reuniões de meio e fim de ano, quando faltava instrumento, se tocava no balde e na colher, e se inventava.
A invisibilização e as vozes lembradas tarde demais
aridan já sentiu, no corpo e no palco, a tentativa de apagar a sua voz. Ao recitar um poema sobre Sara Baartman, a mulher negra cujo corpo foi violado e exposto por uma ciência racista, ouviu de homens que estava inventando demais, ficando doida, na época da sua transição de Clécia para aridan. E, entre as mulheres do samba, viveu a recepção hostil na hora de passar o som, o descaso que parece mínimo, mas é grande.
Ela lembra que a revolução das mulheres no palco do samba é recente, não tem nem dez anos, e que tantas foram lembradas tarde demais: Clementina de Jesus, descoberta aos setenta; Jovelina Pérola Negra; Clara Nunes; Araci de Almeida, reconhecida depois dos sessenta; e Conceição Evaristo, que levou anos para publicar um livro. Nomear essas mulheres é parte de recusar o apagamento.
A força do aché: corpo e música como território
Perguntada sobre a força do aché, aridan fala do ori, a cabeça, em iorubá. A sua religião, diz, é cuidar da cabeça, e é uma religião da comida: a cozinha é o coração da casa, é de onde sai o aché, e alimentar é alimentar a comunidade, o corpo e a cabeça de uma vez só. Corpo e música se tornam, ali, território político.
O caminho até esse lugar passou por muitas encruzilhadas. Iria ser freira, mas a comunidade entendeu que ela não cabia naquele quadrado, porque falava demais. Ficou de mal com Deus, procurou espiritualidade em várias igrejas, até que, no carnaval de 2008, viu o afoxé descer a Avenida Araguaia e se encantou. Chegou ao terreiro já sabendo o xirê inteiro, a festa em que se canta e se dança rezando.
“O corpo que dança é o corpo que reza.”
Foram sete anos no terreiro até a iniciação para Xangô, de quem se diz filha, com Oxum, suas referências de pai e mãe. A iniciação, conta, foi também cura em meio a adoecimentos: um voltar ao útero, entrar na camarinha para perder o que se era e renascer com um novo nome ancestral, uma família e as marcas no próprio corpo. Sobre encruzilhada, ela deixa um recado: a encruzilhada é para se sair dela.
“Exu dá o chão e você dá o passo.”
“O coletivo só existe porque existe o indivíduo, e o indivíduo só existe porque o coletivo reconhece ele.”
Fazer da rua, da periferia e da roda de samba um lugar de criação é, também, um ato político.
E cada canção que nasce daí é um chamado à autonomia.
Assista aos episódios
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