O Silêncio por Damiana Pereira de Sousa| Crônicas Feministas

O Silêncio | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
Damiana Pereira de Sousa
Damiana Pereira de Sousa
Professora e pesquisadora de literatura indígena
Doutora e mestra em Geografia (PPGEO/UFG) · Especialista em Educação em Astronomia (IESA/UFG)
Pesquisadora do grupo Espaço, Sujeito e Existência “Dona Alzira” (IESA/UFG) · Cronista da Coluna Opinião do blog Multiplicadores de Visat (ENSP/Fiocruz)

O Silêncio

Diante das vidas de Daiane e Raissa, Damiana afirma o desejo que atravessa seu grito: as mulheres indígenas querem viver, sonhar e determinar o próprio destino.
17 de julho de 2026 Crônicas Feministas ACCA

Era manhã de uma sexta-feira qualquer. Cheguei no colégio onde trabalho, cumprimentei meus colegas e me sentei para esperar o sinal tocar e, então, partir para ministrar as aulas do dia; abri o Instagram e me deparei com uma postagem da escritora indígena macuxi Julie Dorrico, a qual explicitou:

Quando morre uma mulher indígena
morre um pouco de um povo
morre um pouco de todos nós [indígenas]
e muitos sonhos
e o direito de determinarmos nosso próprio destino
morre um pouco da [Mãe] Terra
pois é menos uma natureza a estimá-la.
Quando morre uma mulher indígena.
Não. Quando é assassinada uma mulher indígena
nossas indignações pulsam no peito mais forte, ante o curso incomum de desumanidade.
Não deveria ser naturalizado e nem possível.
Pois morrem mulheres indígenas.
Exigimos justiça para Daiane Griá Kaingang, 14 anos, brutalmente assassinada, no RS. Julie Dorrico, escritora macuxi

Tive que me conter, segurar o choro e a ânsia de vômito; senti uma dor no peito, senti ardê-lo em chamas de dor, pois havia sido assassinada mais uma mulher indígena. Eu, que hoje tenho certeza da minha ancestralidade indígena, senti no corpo a chama da indignação a me atravessar como um jato febril. Naquele momento acabou, para mim, o dia. Eu estava enlutada por dentro. O crime, o texto de Dorrico, a imaginação, tudo girou na minha cabeça como um vendaval de espetos. Foi difícil ministrar aulas naquela manhã de sexta, uma manhã que, apesar do sol fumegante, para mim estava nublada.

Fui dominada por um misto de sentimentos, medo, tristeza, angústia e indignação, sobretudo, pois meus pensamentos passaram a ser controlados pelas imagens; por aquela brutalidade cometida contra o corpo sagrado de Daiane, uma criança, uma menina. Quando cheguei em casa comecei a pesquisar se havia saído alguma notícia sobre o crime sujo cometido contra Daiane em algum lugar, sem ser em postagens de autores(as) e lideranças indígenas. Encontrei apenas em sites regionais, breves reportagens, nada na grande mídia. O silêncio medonho reina, entendi!

Duas mortes: a do corpo e a da memória

O silêncio diante do estupro e assassinato de meninas e mulheres indígenas é repugnante. Entendi também haver duas mortes: a do corpo abatido pela covardia e a da memória. Entendi o papel político de silenciar a memória; entendi o que é política de esquecimento. Segundo a Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade (ANMIGA), Daiane foi encontrada nua com as partes inferiores arrancadas e dilaceradas. Um requinte de crueldade que destrói a alma dos trabalhadores, dos povos indígenas, dos “esfarrapados” do Brasil.

Entendi o papel político de silenciar a memória; entendi o que é política de esquecimento.

Uma perversidade monstruosa que demonstra as tentativas frias e planejadas daqueles que, desde 1500, tentam exterminar os povos indígenas, silenciar, apagar, invisibilizar e privá-los de seus direitos constitucionais. Aqueles que não sabem mais sonhar (acredito eu que nunca souberam), aqueles que disseminam ódio, destruição e morte por onde passam; que vivem na lógica do poder, do dinheiro e da ganância.

Dois dias depois, mais uma morte: Raissa da Silva Cabreira, 11 anos, pertencente ao povo Kaiowá. Segundo Sônia Guajajara, uma das maiores lideranças indígenas da atualidade, a criança foi encontrada sem vida na aldeia Bororó, localizada na Reserva Indígena Federal de Dourados, Mato Grosso do Sul. Dados da perícia indicam que ela, Raissa, foi jogada de uma altura de aproximadamente 20 metros de uma pedreira desativada. Uma criança!

Minha indignação me sufoca. Já são 521 anos de morte. Eu quero a vida! Havia grito em meu silêncio.

Cadê a indignação?

Na segunda, dia 9 de agosto de 2021, ministrei aula para o 1º Ano do Ensino Médio e o conteúdo abordado relacionava-se à questão indígena. Aproveitei e perguntei aos(às) meus/minhas alunos(as) se eles(as) tinham visto ou ouvido algo sobre esses crimes. Eles(as) foram unânimes na resposta:

Tentei dialogar com algumas pessoas sobre o assunto, mas não houve interesse. A sensação que tive é que este é um assunto que incomoda, que elas, as pessoas, “preferem” fingir que não existe. Cadê a indignação? Cadê os questionamentos? Cadê os jornais denunciando? Expondo? Por que se calam? Por que as vidas das mulheres indígenas são tiradas com as mais profundas expressões que a palavra violência pode demonstrar? Por que não se fala sobre isso? Por que reagem como se fosse um grande infortúnio?

É dolorido demais escrever sobre morte, minha cabeça explode em dores, minhas mãos tremem, as lágrimas escorrem, lágrimas de indignação jorram perante a violência extrema, o descaso, o silêncio. Este silêncio nos oprime e nos deixa sem ar. Nos adoece. Nós, mulheres, ventres sagrados, nós, guerreiras, originárias, filhas, mães, irmãs, netas, indagamos: por que, Brasil?

Manifestações da Mãe Terra

Diante deste cenário sombrio me apego às palavras dela, Eliane, mulher, guerreira, poeta, professora, Potiguara, que nos consola, encoraja e nos ensina que todas nós, mulheres, somos manifestações da Mãe Terra em forma humana. Entendeu, Brasil?

Lágrimas

Se um dia tiveres que desmoronar em lágrimas, o faça porque seu corpo e alma não aguentam mais o peso do sofrimento e da opressão da vida. E não tenhas vergonha por isso, porque a maior dignidade é ser verdadeiro(a) consigo mesmo(a). Derrama todas as lágrimas na mesa e recomponha-se para o amanhecer. Eliane Potiguara

Crônica publicada originalmente na Coluna Opinião do blog Multiplicadores de Visat (Fórum Intersindical, ENSP/Fiocruz), em 23 de agosto de 2021. Republicada nas Crônicas Feministas da ACCA com autorização da autora.

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