10 minutos de silêncio por Ana Carolina de Oliveira Marques | Crônicas Feministas

10 minutos de silêncio | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
Ana Carolina de Oliveira Marques
Ana Carolina de Oliveira Marques
UFPB · Dona Alzira · Colaboradora

10 minutos de silêncio

Soluções tecnológicas para problemas complexos não são avanços, são retrocessos. Uma crônica sobre escola, telas e sofrimento.
10 de julho de 2026 • Crônicas Feministas • ACCA

“Soluções tecnológicas para problemas complexos, não são avanços, são retrocessos.”

Essa foi uma das frases que circularam no seminário final do curso “Formação de diretores escolares para a escuta: cartografias existenciais de Pessoas com Deficiência em escolas públicas do estado da Paraíba”, na última sexta de novembro, na Universidade Federal da Paraíba. Abordo, nesta crônica, a relação entre escola, tecnologia e sofrimento.

Numa aula remota, no mencionado curso, o professor Rodrigo Emídio lançou algo mais ou menos assim:

AO INVÉS DO FETICHE TECNOLÓGICO, NÃO SERIA O PAPEL DA ESCOLA ESTIMULAR A AUTONOMIA DOS SUJEITOS FRENTE À TECNOLOGIA?

Da pergunta do Rodrigo, salto — no tempo e no espaço — para a resposta de um professor cubano quando indagado se houve crescimento dos diagnósticos de transtornos mentais em Cuba:

“Não percebo esse crescimento. Talvez porque nossas crianças e adolescentes ainda não estão imersos nas telas como aqui (Brasil).”
5h
tempo médio diário de tela do brasileiro — bem acima da média mundial de 3 horas
1°
país mais deprimido da América Latina, segundo a OMS

E aí, senhora escola?

Novas formas de sofrimento (Dunker, 2020) habitam os pátios, salas e corredores escolares. Esta é a sociedade do desempenho (Han, 2015). O excesso — de impulsos, atividades simultâneas, autocobranças, incertezas —, camuflado de suposta liberdade, potencializa o sentimento de incompetência, fracasso, inadequação, FOMO (fear of missing out).

Panóptico digital. Ninguém escapa: estamos, precisamos e queremos ser vistos. Storytelling. Fragmentos. De vida, de linguagem, de afeto. Burnout. Frases curtas. Frases. O ar se esvai, afogados no mar de nós mesmos. Mesmo, muito mais do mesmo. Depressão narcísica.

Calma, respiremos: há outras experiências possíveis com o tempo.

Há a contemplação criativa — aquela que produz a ira (distinta da irritação). Há lugar para a demora. Há lugar para o Outro. Finalizo com o exemplo da Escola dos Sonhos.

Esta escola comunitária, no brejo paraibano (Bananeiras), é inusitada em vários aspectos, o que já lhe rendeu uma reportagem na Globo e alguns patrocinadores. De tudo o que vi lá, algo me chamou mais atenção: os dez minutos de silêncio.

Em dois momentos do dia, as crianças se sentam no pátio da escola, onde não se tem nada a observar. Nestes dez minutos, todos devem ficar em silêncio, sem celular. Podem se olhar, abaixar a cabeça, permanecer sentados, deitar ou fechar os olhos. Muitos se olham compenetradamente. A naturalidade com que crianças (agitadas!) vivenciam os dez minutos de silêncio intriga os visitantes.

O fato é que esta desintoxicação digital foi a ação mais inteligente (e inovadora) que vi nas escolas por onde andei nos últimos 5 anos.

A Escola dos Sonhos compreendeu que o sofrimento humano é um problema complexo — e que soluções tecnológicas nem sempre o alcançam. Aliás, muitas vezes, participam da causa do problema.
Referências: Dunker C. Paixão da ignorância: a escuta entre Psicanálise e Educação. São Paulo: Editora Contracorrente, 2020. Han B-C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. World Health Organization. Depression and other common mental disorders: global health estimates. Geneva: WHO, 2017.
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