Além das Barreiras: Coragem que Transforma
Com Neide Nascimento Silva, enfermeira que ajudou a construir o SUS, falamos de uma vida que cresceu junto com Goiânia e de por que educação e cuidado são caminhos de autonomia.
Nascer junto com uma cidade
O que significa se fazer mulher enquanto uma cidade se faz? Neide Nascimento Silva nasceu em Goiânia em 1951, uma cidade jovem, símbolo da modernidade sonhada pelo Brasil, mas marcada pelo atraso: coronelismo, machismo, falta de saúde e de direitos. A infância foi sem água encanada, com fogão a lenha, banho de bacia, arroz e feijão da feira e brincadeiras de rua.
Mas, junto das brincadeiras, vieram as barreiras: a ausência do Estado, a falta de saúde, a baixa visão que a acompanha desde criança. Ela cresceu em meio ao coronelismo goiano, com Brasília recém-inaugurada e o país mergulhado em contradições. Foi a própria Neide quem escreveu o texto que deu origem ao documentário deste episódio, e é por isso que sua história soa como um retrato do próprio processo de urbanização do Brasil.
Márcia Pelá recebe uma mulher que atravessou a ditadura, o coronelismo e o machismo, criou cinco filhas e escolheu a cura e a educação como caminhos de transformação. Uma entre tantas mulheres que constroem cidades, curam feridas e mantêm a esperança viva, e que a história insiste em não ver.
“Passamos por muitas dificuldades, muitas barreiras, mas estamos firmes, continuando a crescer, também com Goiânia.”
Ser enfermeira quando enfermeira não era para mulher
Estudar, na época dela, era luta. Neide veio da escola pública, concluiu o segundo grau e enfrentou o ingresso na universidade quando apenas uma pequena parcela da população chegava lá. O curso de enfermagem era uma faculdade isolada, depois encampada pela Católica em 1973, com grade difícil e mil dificuldades para pagar as parcelas.
Ser mulher e ir para a universidade era romper barreira. O curso era integral, com plantões, e voltar para casa à meia-noite de ônibus, numa cidade que ainda hoje é machista, exigia descer correndo do ponto para chegar em segurança. Somava-se a isso o peso da ditadura militar: o medo dos aviões, dos tiroteios, dos colegas que desapareciam sem explicação.
E havia ainda o preconceito de dentro da própria profissão. A enfermagem era vista como subordinação ao médico, e não como um saber de competência própria. Foi a equipe de enfermagem, aos poucos, que mostrou que cuidar é um trabalho que sustenta e decide, e não apenas obedece.
“A enfermagem tem a competência do cuidado. É quem dá o remédio, quem está te olhando.”
O SUS, um filho de muitas mãos
Neide tem orgulho de ter acompanhado o nascimento do Sistema Único de Saúde. Antes dele, lembra, a saúde era individualista e sem prevenção: quebrou a perna, engessa; dor de cabeça, remédio para a dor. Saúde era definida apenas como ausência de doença.
O SUS mudou essa lógica. Trouxe assistência a toda a população, independente de vínculo, e a ideia de acompanhamento antes do adoecimento. As vacinas, lembra ela, fizeram desaparecer doenças que antes matavam crianças. É o maior sistema público de saúde do mundo, consolidado sob muita luta dos profissionais.
“O SUS é um filho que foi gerado por todos os profissionais de saúde.”
E é um filho ainda ameaçado. Neide reclama da lógica que julga o sistema pela falha pequena e ignora os acertos: “tem noventa e nove feito, então vamos ver o que falta para melhorar”. Desmontar o SUS, para ela, é escolher gastar mais com quem adoece do que investir em quem se mantém saudável.
Cinco filhas, todas na universidade
Criou cinco filhas, todas formadas. Para Neide, foi questão de objetivo: desde a primeira, sabia que o estudo tinha sido o caminho da sua própria autonomia, e que era isso que precisava oferecer. Educou no respeito às pessoas, independente de quem sejam ou de que vida tenham.
Em casa, havia regra clara e havia festa. Cada certificado, do maternal em diante, virava celebração, uma forma de dizer que valia a pena seguir. E havia sobretudo uma disposição: encarar tudo como possível, sem dramatizar o esforço.
“Educação e conhecimento dão um alargamento de vida. Sem instrução, a pessoa não consegue lutar pelos seus direitos.”
É essa a chave que atravessa toda a conversa. O conhecimento não é enfeite: é o que permite a alguém saber para onde caminhar, reconhecer os próprios direitos e deixar de apenas empurrar o que aparece pela frente.
O bloco da ação: mais gente formada, menos precarização
No segundo episódio, a conversa vira o presente da saúde e da educação. Neide é direta: falta enfermeiro, e a conta acaba caindo sobre os técnicos. Num hospital particular, é comum haver um único enfermeiro para trinta, quarenta técnicos, o que sobrecarrega todo mundo e cria risco no cuidado.
Ela faz questão de uma distinção. Não se trata de dispensar o técnico, que é parte essencial da equipe, mas de recusar a lógica do “só técnico”, que corta a formação integral, a parte teórica e o entendimento. E denuncia o que está por trás: uma saúde tratada como fonte de lucro, que barateia a formação e desvaloriza quem cuida. Técnico com salário baixo acaba fazendo três turnos, algo humanamente impossível.
“Vá em frente. Lute pela vida de vocês.”
“Tenha um salário próprio, nem que seja vendendo uma plantinha. Não dependa das pessoas.”
“Busque instrução, busque um caminho e busque a realização onde você manda na sua vida.”
Envelhecer é para quem está viva
Aposentada da enfermagem, Neide não parou. Faz artesanato, e qualquer garrafa vira vaso na mão dela; faz tricô; e canta num grupo de música de trinta e duas pessoas, que se reúne uma vez por semana. É uma herança: o pai tocava acordeon, a avó e a mãe cantavam, e a casa tinha rodas de música.
Sobre um país que cultua a juventude, ela responde com serenidade e lógica. Só existe o novo porque existe o velho; só existe futuro se houve passado e presente. Envelhecer, diz, é questão de aceitação e de amor próprio, e ela não se abala com uma marca no rosto ou com o que os outros pensam.
“A gente tem que aceitar a gente como a gente é. Eu me acho bonita. E quem paga as minhas contas sou eu.”
O recado final é prático e vale para qualquer idade: não criar empecilho para ficar parada, levantar, andar um quarteirão, depois dois passos, ir à luta. Autonomia, para Neide, é ter competência para decidir a própria vida, no que fazer e no que querer. É disso que a ACCA fala: nenhuma mulher, em nenhuma idade, é descartável.
Assista aos episódios
Episódio 81 • Além das Barreiras: Coragem que Transforma, com Neide Nascimento Silva (Parte 1) Episódio 82 • Além das Barreiras: Coragem que Transforma, com Neide Nascimento Silva (Parte 2)Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.
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