As Políticas do Cuidado e da Escuta
Com o psicanalista Leonel Cardoso, falamos sobre a violência que mora no silêncio, o cuidado como direito coletivo e a autonomia como forma de se definir pelos próprios termos.
A violência que mora no silêncio
No Brasil, uma em cada três mulheres já sofreu algum tipo de violência, e mais de 70% das pessoas LGBTQIA+ relatam discriminação no cotidiano. Ainda assim, seguimos com serviços de saúde mental e políticas públicas que falham em escutar e cuidar. A violência não é só física: ela se esconde na falta de escuta, no descaso, em tratar o outro como objeto e negar-lhe o cuidado.
Márcia Pelá recebe Leonel Cardoso, psicanalista, psicólogo, professor na PUC Goiás, mestre em psicologia social pela UFMG e clínico na Nós Psicologia Diversa. Sua trajetória atravessa a clínica e a saúde pública: entrou na psicologia com uma visão clínica, mas se apaixonou pelas ciências sociais logo no primeiro período, ao entender que não dá para pensar o sujeito sem pensar os processos sociais em que ele está inserido.
Foi para a iniciação científica estudar gênero e sexualidade, depois para o mestrado pesquisar violências em espaços LGBT, e por volta de 2013 mergulhou no SUS, passando por programas de DST/aids, estratégia saúde da família e serviços de saúde mental. Uma trajetória marcada pelo encontro com a saúde pública e com a escuta de sujeitos atravessados por classe, raça, gênero e sexualidade.
“Sem escuta não há cuidado. Sem cuidado não há humanidade.”
Quando o outro vira objeto
Leonel propõe pensar a violência a partir de uma relação de opressão: quando alguém ocupa a posição de objeto, não pode falar da própria existência: é o outro quem define o lugar que ocupa. É o que ele reconhece nas relações de gênero, na homofobia, em qualquer dinâmica que retire a humanidade do sujeito para marcar uma hierarquia de poder.
A conversa evoca Simone de Beauvoir e sua comparação entre a mulher e o escravo: enquanto a opressão convence a mulher de que ela só existe através de um homem ou de um filho, o próprio opressor passa a depender desse trabalho invisível e gratuito. Márcia lembra que é o mesmo mecanismo do patrão em relação ao empregado. Leonel completa com Carole Pateman: nosso contrato social está assentado sobre um contrato sexual do qual ninguém fala, ainda que sustente o trabalho de cuidado historicamente mal remunerado.
Essas relações de dominação são estruturais, atravessam o Estado, a cultura, as instituições, e moldam a própria subjetivação: nos socializamos passando por relações de dominação. Por isso, para Leonel, romper com a violência exige que o sujeito rompa com o próprio medo e reconheça que pode se relacionar com o mundo sem reproduzir a lógica do objeto.
“Quem depende do trabalho de graça do empregado é o patrão; quem depende do trabalho invisível é o marido e os filhos.”
Cuidado como direito, não como caridade
No segundo episódio, a conversa aprofunda a clínica ampliada: pensar a escuta não como “que legal, eu cuido de você”, mas como reconhecimento de que a vida merece ser vivida, e como isso precisa ser coletivo, não apenas individual. Leonel resgata a esquizoanálise de Guattari e Deleuze, que desloca o olhar da psicanálise clássica para as forças do mundo que atravessam cada sujeito, e não apenas para o indivíduo isolado.
Um exemplo concreto: o grupo de homens do CAPS Esperança, que começou como uma atividade de futebol conduzida por um educador físico e, aos poucos, virou um espaço de identificação e escuta entre os participantes: a fala de um se tornando terapêutica para o outro. Para Leonel, esse é o tipo de dispositivo que a saúde pública precisa multiplicar: escutas em grupo, ações no território, práticas que resgatem o que é humano dentro de instituições que costumam apagar o sujeito, como o hospital.
“A nossa ação, a ação de quem tá na escuta, precisa ser uma ação militante também no campo da saúde.”
Procure relações e espaços que te escutem e te façam sentir você mesma: essa é, para Leonel, uma boa medida de saúde subjetiva.
Desconfie de relações que não validam sua experiência: perceber o adoecimento numa relação já é um primeiro passo para saná-lo.
Autonomia é se definir pelos próprios termos
Ao ser convidado a definir autonomia, Leonel hesita e depois resume: é conseguir se definir e viver, ainda que em parte, pelos próprios termos. Como dica para quem quer entrar na psicologia, ou para qualquer pessoa, ele propõe buscar relações e espaços que permitam esse encontro consigo mesma, em vez de relações que produzem apenas mais adoecimento.
Márcia fecha o programa lembrando de uma frase que atravessa o pensamento negro feminista: o dia em que a rua for mais importante que a casa, o público mais importante que o privado, o mundo estará melhor. Uma síntese possível para uma conversa que uniu psicanálise, saúde pública e a convicção de que cuidar é, também, uma forma de luta política.
“Autonomia é a gente conseguir se definir um pouco pelos próprios termos e viver um pouco pelos próprios termos.”
Fica aqui só um recorte de uma conversa que atravessa décadas de teoria, anos de clínica e experiências concretas de quem escuta, todos os dias, o que a violência silenciosa faz com as pessoas. Quantas vezes você já foi tratada como objeto e nem percebeu? Quantas relações ao seu redor vivem dessa lógica de dominação sem que ninguém nomeie isso?
Assista aos dois episódios completos abaixo e acompanhe, em tempo real, como Leonel Cardoso constrói esse raciocínio, do consultório às políticas públicas. Depois, compartilhe com alguém que precisa ouvir que cuidado é direito, não favor.
Assista aos episódios
Episódio 91 • As Políticas do Cuidado e da Escuta, com Leonel Cardoso (Parte 1) Episódio 92 • As Políticas do Cuidado e da Escuta, com Leonel Cardoso (Parte 2)Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.
A ACCA está reunindo empresas, profissionais e instituições numa rede pública de compromisso com a vida e a autonomia das mulheres. Porque, diante da violência, o silêncio também comunica. E porque autonomia é condição coletiva, ninguém constrói esse caminho sozinha.
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