
Quando os girassóis somem
Setembro chega acendendo fachadas, amarrando fitas nas árvores, girassóis de plástico onde antes havia apenas concreto. De repente, a cidade inteira parece ter aprendido a mesma palavra:
É bonita, a sentença. Tem cheiro de abraço, de porta entreaberta, de luz deixada acesa para quem ainda não voltou. Mas há dias em que permanecer não tem nada de luminoso. Dias em que permanecer é uma coisa pequenininha. Quase invisível.
Todos os anos, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio no mundo. A frase acima termina num ponto. A ausência, não. A ausência continua. Mora na cadeira vazia. No nome que ainda aparece nos contatos do telefone. Na fotografia que ninguém sabe se guarda. Na roupa que perdeu o corpo, mas não perdeu o cheiro. Nos aniversários que chegam mesmo quando alguém já não está.
Talvez seja por isso que números sejam tão insuficientes. Eles sabem contar corpos. Não sabem contar silêncio. Setembro tenta. Será que tenta? Talvez toda tentativa de dizer “eu vejo você” carregue alguma beleza. Mas existe também o risco de nos acostumarmos com a cor amarela.
O olho humano aprende depressa. Talvez aconteça o mesmo com certas palavras. Prevenção. Acolhimento. Esperança. Repetidas muitas vezes, elas podem começar a passar diante de nós como passam as paisagens conhecidas pela janela de um carro. Sabemos que estão ali. Mas já não olhamos.
Às vezes é abrir uma conversa e não saber como terminá-la. É escrever três palavras e apagá-las. Há dores que não sabem se explicar. Dores que chegam sem metáfora. Sem começo. Sem pontuação. Talvez por isso seja perigoso imaginar que o sofrimento obedeça ao calendário.
Setembro termina. O sofrimento, nem sempre. Outubro chega com suas outras cores, seus outros assuntos, suas outras urgências. As luzes se apagam. As fitas desaparecem. Os girassóis deixam de ser. Talvez o cuidado comece justamente aí. Quando já não há campanha olhando. Quando não há fotografia bonita. Quando ninguém está usando amarelo. No telefonema feito numa terça-feira qualquer. Na mensagem enviada de novo. No silêncio dividido sem pressa. Na cadeira puxada para mais perto.
Porque há momentos em que não existe frase capaz de salvar uma tarde. Talvez exista apenas presença. Alguém que não vá embora depressa demais. Alguém que suporte não ter resposta. Alguém que compreenda que sobreviver nem sempre se parece com esperança. Às vezes se parece com adiamento.
E talvez seja aí que o girassol se torne uma metáfora imperfeita. Ele procura a luz. Inclina-se para ela. Cresce como se soubesse, desde sempre, onde está o sol. Gostamos dessa imagem porque ela parece dizer alguma coisa sobre esperança. Mas pessoas não são girassóis. Há dias em que não sabemos onde está a luz. Outros em que ela existe, visível, inteira, e ainda assim não conseguimos nos voltar para ela.
E há os dias em que pedir a alguém que “procure o lado bom” é quase pedir que enxergue uma janela num quarto que, naquele instante, não tem nenhuma. Talvez não seja preciso procurar o sol. Talvez, em certos momentos, seja suficiente que alguém se sente ao nosso lado no escuro. Sem acender todas as luzes. Sem exigir esperança. Sem perguntar por que ainda não florescemos. Apenas ficando.
A lembrar que uma campanha é uma porta, não uma casa inteira. Talvez o verdadeiro sentido de setembro seja aprender a reconhecer a dor, mesmo quando não existam mais girassóis.
Ana Saragossa é geógrafa, escritora, corredora iniciante e progressista. Escreve sobre afetos, perdas e o que nos torna humanos. Acredita que as palavras são capazes de abrir portas quando outras linguagens falham.
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