Luto Perinatal: Reconheça com Jéssica Piani | Do Estúdio ao Blog

Luto Perinatal: Reconheça, com Jéssica Piani | ACCA
Do Estúdio ao Blog
Conversas sobre autonomia, direitos e transformação social que continuam para além do estúdio.
Maternidade e luto

Luto Perinatal: Reconheça

A sociedade celebra a maternidade como o ápice da vida de uma mulher e, no mesmo gesto, nega a ela o direito de chorar quando essa vida não se realiza.

Jéssica Piani e Márcia Pelá durante a gravação do programa Autonomia Feminina, ACCA
Jéssica Piani e Márcia Pelá durante a gravação do programa Autonomia Feminina, ACCA.

Chorar não é sinal de fraqueza, mas um ato político.

Do documentário do episódio

Há uma pergunta que organiza este episódio e que a cultura prefere não fazer: por que a perda de um bebê é uma dor que quase não pode ser dita? A resposta não está na falta de sensibilidade das pessoas. Está na forma como a maternidade foi construída entre nós. Quando o feminino é reduzido à função de gerar, a mulher que perde um filho é empurrada para uma zona de silêncio, como se, não tendo completado a maternidade, não tivesse direito à dor. É essa engrenagem, e não o azar de cada uma, que a conversa com Jéssica Piani ajuda a nomear.

Jéssica viveu o parto prematuro de João Vicente e trinta dias na UTI neonatal antes da partida dele. Poderia ter guardado a experiência como tragédia privada. Fez o contrário: transformou-a em cuidado e em crítica, recusando que a sua dor continuasse invisível. É desse lugar, o de quem atravessou e voltou para contar, que ela fala.

O conceito

Luto perinatal é o luto pela morte de um bebê durante a gestação, o parto ou os primeiros dias de vida. O que o torna singular não é só a dor, é o silenciamento: por não haver convivência longa, a sociedade age como se não houvesse perda, e nega à mãe o reconhecimento que ofereceria a qualquer outro luto.

O documentário do episódio lembra que, no Brasil, um em cada dez bebês nasce em situação de alto risco. O número importa menos pelo que soma e mais pelo que denuncia: existe uma multidão de mulheres atravessando esse luto, e ainda assim ele é tratado como exceção constrangedora. A dimensão coletiva já desmonta a primeira mentira, a de que se trata de um problema individual.

A maternidade que não cabe na romantização

Jéssica não desejava ser mãe, e a gravidez chegou como susto e negação. Ao contar isso sem culpa, ela toca num tabu que é anterior à própria perda: o mito do amor materno instantâneo, aquele que supostamente deveria surgir inteiro no momento em que se descobre a gestação. Ela não o sentiu, e descobriu depois que muitas outras mães também não.

O conceito

A romantização da maternidade é a crença de que toda mulher sente, de imediato, um amor completo e sacrificial pelo filho. Não é um dado da natureza, é uma construção histórica: ela transforma o cuidado em obrigação e reduz a mulher a “só mãe”, apagando a pessoa que existe antes e além disso.

Nesta série: é o mesmo mecanismo que a psicanalista Isana Braz descreve no episódio sobre o amor romântico. O afeto vira um roteiro escrito de fora, e o roteiro vira dever. Na maternidade como no amor, romantizar é o modo mais eficiente de responsabilizar a mulher por tudo.

“Que amor instantâneo é esse? Que romantização da maternidade é essa?”

Ao recusar esse roteiro, Jéssica faz a crítica antes mesmo da tragédia. E é essa lucidez, a de quem já entendia a maternidade como construção e não como destino, que depois vai sustentar o modo como ela vive o próprio luto.

O SUS como infraestrutura do cuidado

No Dia das Mães de 2017, um sangramento levou Jéssica à Maternidade Dona Íris, um hospital público do SUS. Com vinte e três semanas, entrou em trabalho de parto sem motivo aparente. João Vicente nasceu de parto normal e foi direto para a UTI. Contado assim, parece apenas um percurso clínico. Mas vale ler de outro modo.

Numa sociedade que privatiza o cuidado e o joga inteiro sobre as costas das mulheres, uma instituição pública que acolhe é, ela própria, uma política de autonomia. O espaço que o hospital mantém para as mães de UTI, com descanso, refeições, arteterapia, acompanhamento psicológico, assistência social e até passe de ônibus, não é caridade. É o reconhecimento, em concreto, de que cuidar é responsabilidade coletiva, e não fardo solitário de cada mãe. Não à toa, Jéssica defende aquele lugar com firmeza.

A culpa é fabricada, não sentida

O primeiro sentimento, conta ela, foi de culpa, e ela veio reforçada de fora, por frases cruéis que atribuíam a perda ao fato de ela não ter desejado a gravidez. Aqui é preciso ser precisa: essa culpa não é uma falha de caráter nem um excesso de sensibilidade. É a interiorização de uma sociedade que responsabiliza a mãe por tudo o que acontece com o filho.

Os dados voltam, agora com outra função. Se de cada dez bebês um nasce em alto risco, a culpa individual simplesmente não explica um fenômeno dessa escala. O que se pede à mãe, no fundo, é que carregue sozinha o peso de uma estrutura, e depois ainda se acuse por ela.

“Nós não somos culpadas.”

Sororidade não é consolo, é política

Ao entrar na UTI, Jéssica viu que não estava só: havia muitas outras mães ali. Dessa constatação nasceram amizades, e o isolamento começou a ceder. O documentário lembra de mães que, em outra maternidade, se organizaram em rodízios de mamadeira e reduziram o próprio isolamento na experiência.

Chamar isso de sororidade não é enfeitar a palavra. É reconhecer uma prática política: quando as mulheres se juntam, elas quebram exatamente o isolamento que a estrutura lhes impõe. O que parece apoio afetivo é, também, uma forma de recusar a solidão como destino.

Memória como direito: a caixa e a certidão

A psicóloga que a acompanhou, Rafaela, e a própria Márcia disseram a Jéssica a mesma coisa: escreva, coloque para fora. Ela fez um caderno e uma caixa com tudo o que sentia, o teste de gravidez, o ultrassom com o som do coração, fotos, roupinhas. Oito anos depois, ainda guarda ali o que sente quando dói.

Foi ao ver essa caixa que a equipe do hospital entendeu a importância de dar às mães um modo de se despedir, e criou a certidão do amor eterno, com o pezinho carimbado, o nome e a data. Um documento simples que institui, na prática, aquilo que a sociedade nega: o direito ao luto. Contra o apagamento, a memória de afeto. Nomear é resistir ao esquecimento.

“O João não foi um ser apagado da minha vida. Existe uma memória de afeto.”

O que fazer diante de quem perde

Na segunda parte do episódio, Jéssica traduz tudo isso em gesto. E o primeiro aprendizado é sobre o que não dizer: a frase “eu entendo a sua dor” não cabe, porque a dor do outro não se entende de fora, e “você pode ter outro filho” fere, porque ninguém sugere a quem perdeu o marido que arrume outro. O que sustenta é a presença.

Ação
Conselho de presença

“Quando não souber o que falar, ofereça um abraço, ou um silêncio, e diga: estou aqui do seu lado.”

Não ofereça substitutos para a perda. Acolha e respeite a dor, e deixe a pessoa senti-la no tempo dela.

Se a dor é sua, se permita. Você tem direito ao seu luto, e para reerguer é preciso acompanhamento e parceria, porque a vida é coletiva. Acompanhamento psicológico existe, inclusive gratuito, pelo SUS.

Nomear o luto é um ato de autonomia

Aceitar a dor, diz Jéssica, foi o primeiro passo para poder seguir com ela: a dor não vai embora, mas se transforma e se ressignifica, sem apagar a memória. Nesse caminho foi decisivo o acompanhamento psicológico que ela teve pelo SUS, por sete anos, e a leitura de outras mulheres que passaram pelo mesmo, como no livro “Até Breve, José”.

Hoje ela se reconhece inteira, mulher, profissional e mãe, e afirma que tem um filho. Que essa afirmação ainda cause espanto diz muito sobre uma sociedade que cultua o nascimento e não sabe lidar com a morte. É por isso que nomear importa: reconhecer o luto perinatal é devolver a essas mulheres o direito de existirem por inteiro, na alegria e na perda.

“Uma sociedade patriarcal, machista e misógina mexe até no direito de a mãe sentir dor.”

Tirar essa dor da invisibilidade não se faz sozinha, e não se faz de uma vez. Faz-se com memória, acompanhamento e rede, o que é, no fim, a mesma aposta que atravessa esta série: a autonomia como direito de cada mulher nomear a própria experiência, sustentada por um cuidado que é de todas.

Esta matéria integra Do Estúdio ao Blog, o espaço da ACCA para conversas sobre autonomia, direitos e transformação social. As falas são de Jéssica Piani; a leitura e as conexões são da ACCA.

Informação que acolhe

Para saber mais

Informações que ajudam a compreender, reconhecer e acolher o luto perinatal.

O que é Luto perinatal

Luto perinatal é o luto pela morte de um bebê durante a gestação, o parto ou os primeiros dias de vida.

Por que o luto perinatal precisa ser reconhecido?

Porque a perda é real, mesmo quando houve pouco tempo de convivência. Reconhecer esse luto significa respeitar a dor, a memória e a experiência da mulher.

O que não dizer a uma mulher que perdeu um bebê?

Frases como “você pode ter outro filho” ou “eu entendo a sua dor” podem aumentar o sofrimento. O mais importante é oferecer presença, acolhimento e respeito ao tempo do luto.

Onde buscar apoio psicológico após uma perda perinatal?

O acompanhamento psicológico pode fazer parte do processo de cuidado. No Brasil, esse atendimento também pode ser buscado pelo SUS.

Como apoiar alguém que está vivendo um luto perinatal?

Escute sem tentar substituir ou minimizar a perda. Quando não souber o que dizer, estar presente e respeitar o silêncio já pode ser uma forma importante de apoio.

Se você está vivendo uma situação de violência, a Rede Conecta reúne serviços de proteção, acolhimento e orientação para mulheres na Região Metropolitana de Goiânia.

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