O Campo Dimensional da Percepção por  Edson Quaresma |Retalhos #5

O Campo Dimensional da Percepção · Retalhos por Edson Quaresma · ACCA
por Edson Quaresma · toda segunda-feira
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Edson Quaresma
Livre Pensador · Membro da ACCA
Retalhos #5 · 19 de outubro de 2026

O Campo Dimensional da Percepção

A percepção é a ampliação do nosso campo individual em direção ao mundo e ao coletivo. Nunca chegamos ao mundo completamente vazios.

História & Sociedade · Leitura: 4 min

Se a vivência pode ser vista como um movimento no tempo e no espaço, a percepção é a ampliação do nosso campo individual em direção ao mundo e ao coletivo.

Inquietos por natureza, começamos a testar o mundo.

Desde muito cedo, estendemos as mãos para aquilo que está além de nós. Tocamos, ouvimos, cheiramos, experimentamos. Caímos, levantamos, recuamos, avançamos. Aos poucos, vamos descobrindo que existe um mundo para além da pele e, ao mesmo tempo, que esse mundo também encontra caminhos para entrar em nós.

Ao nos movimentarmos em nossa trajetória, nos lançamos para fora e para dentro de nós mesmos. Esse movimento duplo não tem nada de abstrato ou místico: é matéria em ação. É o cérebro esculpindo a própria arquitetura, reorganizando conexões e alterando sinapses à medida que a experiência acontece. A exterocepção registra aquilo que vem de fora; a interocepção acompanha aquilo que acontece dentro de nós. O corpo sente o frio, reconhece a vibração de um som, percebe o chão sob os pés. A experiência deixa marcas.

É assim que começamos a construir uma geografia íntima do mundo.

Mas essa geografia não é feita apenas do que os sentidos alcançam. Perceber é também estabelecer relações, reconhecer diferenças, aproximar aquilo que antes parecia distante. O cérebro não é uma câmera passiva; é uma máquina de antecipação. Utiliza nossa bagagem anterior — as trilhas sinápticas construídas pela memória e pelo hábito — para formular expectativas sobre aquilo que encontrará, enquanto os sentidos corrigem, confirmam ou transformam continuamente esse mapa.

Nunca chegamos ao mundo completamente vazios.

Chegamos carregando aquilo que vivemos, aquilo que aprendemos e, de certa maneira, aquilo que outros viveram antes de nós. A linguagem e a cultura ampliam esse território. Por meio delas, recebemos experiências que não foram nossas, histórias que não testemunhamos, palavras que nos ensinam a nomear o que ainda não sabíamos ver. Cada geração entrega à seguinte uma parte do mapa e, ao mesmo tempo, deixa espaços em branco para que sejam preenchidos por novas caminhadas.

Talvez seja aí que a percepção comece a ganhar outra dimensão.

Não porque tenhamos abandonado o lugar de onde olhamos, mas porque descobrimos que ele não é o único lugar possível.

Podemos tomar emprestada da física a ideia de dimensão como referência para pensar esse movimento. Na geometria, acrescentar uma dimensão significa acrescentar uma possibilidade de deslocamento. Aqui, a dimensão é outra: é a ampliação do campo a partir do qual percebemos.

Quando deixamos de olhar o mundo apenas a partir do “eu”, o outro aparece.

E o outro não é apenas alguém que encontramos pelo caminho. Ele é também uma mudança de perspectiva. Sua presença desloca o nosso olhar, interrompe certezas, apresenta outros modos de sentir, pensar e existir. A alteridade abre um novo eixo de percepção.

É como se, até então, caminhássemos por uma estrada acreditando que ela era o mundo inteiro. Então encontramos outra estrada. Depois outra. E percebemos que aquilo que chamávamos de mundo era apenas o mundo que conseguíamos enxergar daquele ponto.

A percepção amplia a paisagem.

Ao andar para fora e para dentro de nós mesmos, testando limites e possibilidades, a matéria se reorganiza. As experiências deixam rastros, os rastros se transformam em memória, a memória participa de novas percepções, e cada nova percepção pode alterar novamente o caminho.

Talvez seja por isso que movimentar-se pelo tempo e pelo espaço seja também uma maneira de caminhar para dentro de si.

Quanto mais profundamente nos conhecemos, mais caminhos conseguimos reconhecer no mundo. Não porque passemos a possuir todas as respostas, mas porque deixamos de temer as perguntas que cada caminho nos apresenta.

Caminhar para o mais profundo de si é capacitar-se para percorrer todos os caminhos do mundo.

E talvez perceber seja justamente isso: descobrir que o mundo não termina onde termina o nosso olhar.

Ele continua dentro e além de nós — no outro, na paisagem, na memória, naquilo que ainda não conhecemos e que ainda não podemos conceber

Retalhos é uma coluna autoral de Edson Quaresma, publicada toda segunda-feira. As opiniões expressas nos textos são de responsabilidade do autor.

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