
Eu quero chegar viva em casa
Em Goiás, os feminicídios mais que dobraram no primeiro semestre de 2026. E eles não começam no dia do crime: começam numa ideia que está se espalhando.
Toda mulher que eu conheço tem um ritual de chegada. A chave já separada na mão antes de virar a esquina. O olho no retrovisor. O áudio gravado pela metade para uma amiga, só para alguém estar ouvindo. E, lá dentro, com a porta trancada, a mensagem curta: cheguei.
A gente nem pensa mais nisso. Virou gesto, como apagar a luz. Mas é um gesto que carrega uma cidade inteira. Diz que o caminho de casa não é neutro para nós. Diz que existe alguém, do outro lado do celular, esperando para poder respirar.
Eu quero chegar viva em casa. Parece pouco para um desejo. Mas é o desejo de ir e voltar, de trabalhar, de amar, de terminar um amor e seguir em frente. De ter uma vida inteira, e não uma vida em vigília.
Em Goiás, entre janeiro e junho deste ano, 47 mulheres não mandaram essa mensagem. Foram mortas por serem mulheres. No mesmo período do ano passado, tinham sido 22. Mais que o dobro. No Brasil, o número caiu um pouco. Aqui, dobrou, e nenhum outro estado cresceu tanto.
O feminicídio quase nunca vem do nada. Antes vem o controle: de quem ela vê, do que ela veste, do celular, do dinheiro. Antes vem a ameaça, às vezes dita como brincadeira. Antes vem o isolamento, devagar. E antes de tudo isso vem uma ideia. A ideia de que ela pertence a alguém. De que obedecer é o lugar de uma mulher. De que, quando ela decide ir embora, está cometendo uma afronta.
Essa ideia é tão forte que passa por cima até da lei. Em Goiás, os registros de descumprimento de medida protetiva quase triplicaram em cinco anos: foram 1.598 em 2020 e 4.609 em 2025. Quem aprendeu que ela é dele não reconhece nem a ordem de um juiz.
E essa ideia não nasce dentro de casa. Ela chega de fora, todo dia. No vídeo de um minuto que ensina homem a “retomar o comando”. Na pregação que transforma fé em mando. No grupo da família, na piada, no comentário embaixo da notícia de mais uma mulher morta: “mas o que ela fez?”. Ninguém precisa dizer “mate”. Basta repetir, muitas vezes e em muitos lugares, que ela deve obedecer. O resto, alguém completa.
Esse pensamento está crescendo. Não chega como enchente, de uma vez. Chega como água que vai minando: entra pelas frestas, encharca as conversas, sobe pelas paredes até parecer que sempre esteve ali. Capilariza. E o que se espalha assim vira paisagem. Ninguém estranha mais.
Na semana passada, essa água chegou à Câmara de Goiânia. Ali foi aprovada, em primeiro turno, uma comenda com o nome de Charlie Kirk, o influenciador norte-americano que, quando a cantora Taylor Swift anunciou o noivado, mandou que ela rejeitasse o feminismo e se submetesse ao marido, porque não era ela quem estava no comando. É a mesma lógica do controle que vem antes do feminicídio, saindo do microfone e entrando na instituição. Quando o poder público escolhe a quem dar honra, diz também o que considera aceitável.
O mesmo estado que escreveu, no seu plano de combate à violência contra a mulher, que a cultura machista e a naturalização da violência são uma ameaça que a polícia sozinha não resolve, vê a sua capital discutir uma medalha para quem ensinava mulher a obedecer.
E eu não aceito mais a pergunta “por que ela não saiu?”. Sair exige ter para onde ir, saber a quem recorrer, ter quem acredite. Sair é uma condição coletiva. Quando uma mulher fica sozinha diante de quem a ameaça, não foi ela que falhou. Falhou tudo em volta dela: o Estado, a vizinhança, a família, a ideia que todo mundo repetiu e ninguém contestou.
A misoginia mata. Não só pela mão de quem aperta o gatilho, mas por tudo o que, antes, ensinou a ele que tinha esse direito.
Hoje, 6 de novembro, é o Dia Estadual de Combate ao Feminicídio, criado em 2018 por uma lei proposta pela então deputada estadual Adriana Accorsi. E hoje as coletivas de mulheres aparecem juntas, cada uma no seu canto da cidade, gravando no celular a mesma frase. Fundos diferentes, a mesma exigência. Se o ódio se espalha pelas frestas, a gente também sabe se espalhar. A amiga que pergunta duas vezes. A vizinha que não finge que não ouviu. A colega que sabe o caminho.
E saber o caminho importa. Muita mulher não pede ajuda porque não sabe onde. A Rede Conecta existe para isso: em redeconecta.org, você descobre o que existe perto de você. Para você, ou para aquela amiga que anda sumida.
Eu não quero que o “cheguei” dependa de sorte. Quero que ele volte a ser só um carinho entre amigas, coisa de quem quer saber se a outra está bem, e não se a outra está viva.
Até lá, a gente segue junta. Ninguém caminha só.
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