Carolina de Jesus: nomes que carregam histórias, mulheres que resistem por Carolina Gomes de Jesus|Crônicas Feministas

Crônicas Feministas · ACCA
Carolina Gomes de Jesus
Carolina Gomes de Jesus
Colaboradora · Crônicas Feministas

Carolina de Jesus: nomes que carregam histórias, mulheres que resistem

28 de outubro de 2026 • Crônicas Feministas • ACCA

Há nomes que parecem carregar o peso e a beleza de muitas vidas. Nomes que atravessam o tempo, guardam memórias e nos aproximam de histórias que, embora não tenhamos vivido, de alguma maneira também nos pertencem. Meu nome é Carolina Gomes de Jesus. E, quando penso em Carolina Maria de Jesus, sinto que existe algo de profundamente simbólico nessa coincidência. Somos duas Carolinas de Jesus, separadas pelo tempo, por nossas experiências e pelas circunstâncias da vida, mas ligadas por um nome que me faz pensar nas mulheres negras, em suas lutas silenciosas e na coragem de continuar escrevendo a própria história.

Carolina Maria de Jesus nasceu em Sacramento- (MG) e conheceu de perto a pobreza, a fome e as desigualdades que marcam a vida de tantas mulheres negras no Brasil. Catadora de papel, mãe solo e escritora, transformou cadernos encontrados no lixo em instrumentos de denúncia e resistência. Em Quarto de despejo: diário de uma favelada, publicado em 1960, registrou a dureza da vida na favela, a luta cotidiana pela sobrevivência e as contradições de uma sociedade que insiste em não enxergar todos os seus filhos da mesma maneira. Carolina escreveu porque precisava falar, porque sua realidade precisava ser conhecida e porque a palavra também pode ser uma forma de não se deixar apagar.

O que mais me impressiona em sua trajetória é que ela não esperou que o mundo lhe concedesse autorização para ser escritora. Escreveu com os recursos que tinha, nas condições que a vida lhe permitiu e a partir do lugar que ocupava na sociedade. Enquanto muitos enxergavam apenas uma mulher pobre, negra e favelada, ela enxergava histórias, denunciava injustiças e produzia conhecimento sobre o Brasil. Sua escrita rompeu muros que pareciam intransponíveis. Como nos ensina Conceição Evaristo, outra grande escritora negra brasileira, nossas experiências também são matéria de literatura, memória e conhecimento. A palavra que nasce da vida pode transformar aquilo que a sociedade tenta manter escondido.

A palavra que nasce da vida pode transformar aquilo que a sociedade tenta manter escondido.

Penso em Carolina Maria e lembro de tantas outras mulheres negras que, mesmo sem reconhecimento, sustentam o mundo com as próprias mãos. Mulheres que acordam cedo, trabalham, cuidam dos filhos, enfrentam preconceitos e encontram forças para recomeçar. Mulheres que estudam depois de um dia cansativo, que ocupam espaços historicamente negados e que precisam provar, muitas vezes mais do que os outros, que são capazes. Mulheres que carregam sonhos nos olhos e responsabilidades nos ombros. Algumas escrevem livros; outras educam, pesquisam, cuidam, ensinam e abrem caminhos. Muitas nunca terão seus nomes registrados nas páginas da história, embora suas mãos tenham ajudado a construí-la.

É impossível falar dessas mulheres sem pensar em minha própria caminhada. Nasci na Cidade de Goiás, filha de pais simples, trabalhadores, que me ensinaram que a dignidade não depende da quantidade de diplomas, mas dos valores que carregamos. Minha mãe, com os recursos que tinha, fez o possível para que eu pudesse sonhar. Foi na simplicidade de minha origem que aprendi sobre esforço, honestidade e perseverança. Cada etapa da minha formação, cada desafio enfrentado e cada conquista alcançada carregam um pouco dessa história familiar. Não caminho sozinha: comigo caminham os ensinamentos de minha mãe, a memória de minhas raízes e a esperança de que a educação pode abrir portas.

Hoje, quando me apresento como Carolina Gomes de Jesus, penso na responsabilidade bonita de carregar um nome que também pertence à memória de uma mulher que transformou a própria dor em literatura. Não afirmo que nossas histórias sejam iguais, nem que um sobrenome determine nossos destinos. A vida de cada mulher é singular. Mas há uma força simbólica nesse encontro de nomes: ele me convida a reconhecer aquelas que vieram antes, a valorizar as que caminham ao meu lado e a não esquecer as que ainda lutam para encontrar seu lugar.

A vida de cada mulher é singular.

Minha trajetória tomou os caminhos da educação, da Pedagogia e da Geografia. Escolhi estudar, pesquisar e ensinar porque acredito que o conhecimento pode ampliar horizontes e ajudar a compreender as desigualdades que atravessam nossa sociedade. Cada conquista acadêmica tem um significado que ultrapassa o título alcançado. Ela representa as noites de estudo, o cansaço, as renúncias e a vontade de honrar a história de minha família. Representa também a possibilidade de mostrar a outras meninas negras que seus sonhos não precisam caber nos limites que o mundo tenta lhes impor.

Carolina Maria de Jesus escreveu sobre a fome que sentia e sobre a fome que via ao seu redor. Sua obra nos faz compreender que a pobreza não é apenas ausência de alimento: é também ausência de oportunidades, de direitos, de reconhecimento e de escuta. Sua história continua necessária porque ainda existem mulheres cujas vozes são desconsideradas, cujos trabalhos são invisibilizados e cujas capacidades são questionadas pelo racismo e pelas desigualdades sociais. Lembrar Carolina é reconhecer que nenhuma sociedade pode se considerar verdadeiramente justa enquanto tantas pessoas precisam lutar tanto para ter garantido o mínimo necessário para viver com dignidade.

Talvez seja esse o maior ensinamento que encontro ao pensar nela: não precisamos ter vivido a mesma história para reconhecer a força de uma trajetória. Não preciso ter conhecido a fome de Carolina para respeitar sua luta. Não preciso ter vivido sua realidade para compreender a importância de sua escrita. E não preciso ser igual a ela para sentir orgulho de compartilhar seu nome. Posso honrar sua memória seguindo meu próprio caminho, usando a educação como instrumento de transformação e reconhecendo a importância das mulheres negras na construção do conhecimento, da cultura e da sociedade brasileira.

No fim, somos feitas de histórias que começam antes de nós e continuam depois de nossos passos. Algumas mulheres deixam livros; outras deixam ensinamentos, sementes, exemplos e caminhos abertos. Carolina Maria de Jesus deixou palavras que o tempo não conseguiu silenciar. Eu sigo construindo a minha história, com minhas origens, meus estudos, meus sonhos e minhas próprias lutas.

Carolina Maria de Jesus deixou palavras que o tempo não conseguiu silenciar.

E, quando digo meu nome Carolina Gomes de Jesus, lembro que há uma Carolina que escreveu para denunciar as feridas do mundo e tantas outras que continuam escrevendo, ensinando, pesquisando e resistindo, cada uma à sua maneira.

Porque ser mulher negra também é isso: transformar memória em força, conhecimento em caminho e esperança em possibilidade. É não permitir que nossa história seja contada apenas pelos outros. É aprender a escrever o próprio nome, mesmo quando a vida parece ter escolhido outra página para nós.

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