Arte Preta, Educação e Corporalidade
Com Gil Tobias, atriz, educadora e criadora do coletivo Ominira, falamos de ancestralidade, da história preta invisibilizada e da arte que transforma. Ser mulher preta é criar novos mundos.
Quem conta a nossa história
Antes de qualquer palavra, Gil pediu licença. Bênção aos mais velhos e aos que vieram antes dela, para estar ali representando a sua ancestralidade. É desse lugar que ela fala. No Brasil, 66% das mulheres pretas trabalhadoras estão na informalidade; na cultura, menos de 20% dos projetos premiados têm mulheres pretas como protagonistas. E, mesmo assim, são elas que mantêm vivas as tradições, os saberes e a ancestralidade que estruturam a identidade brasileira.
Márcia Pelá recebe Gil Tobias, atriz, educadora, radialista e produtora cultural. Nome de batismo Gilmara, formada em gastronomia, com pós em história e cultura afro-brasileira, há mais de vinte e dois anos na arte. Foi consultando os orixás, conta ela, que entendeu ser esse o seu caminho: trabalhar com cultura preta, carregando junto a mãe, o pai, os avós, toda uma ancestralidade.
Ela coordena o coletivo de mulheres negras Ominira, em Pirenópolis, é premiada pela Fundação Palmares e foi finalista do RevelArtes Mulheres em Cena, da ACCA, na categoria Mulheres do Interior. A conversa é atravessada por Bell Hooks: o feminismo não é só sobre mulheres, mas sobre derrubar todas as formas de opressão, e a educação, enraizada no amor, é a base da autonomia.
“A cultura é sempre um campo de disputa, mas também pode ser um espaço de liberdade.”
A história preta apagada de Pirenópolis
Cidade do ciclo do ouro, construída sobre o trabalho negro e indígena, Pirenópolis se tornou destino turístico cosmopolita e eurocêntrico, e seguiu sem homenagear o povo preto que a ergueu. Foi olhando para essa ausência que Gil criou, em 2018, o projeto Negritude Temos Consciência. O primeiro ano foi uma palestra; nos seguintes, veio a música, o maracatu, o jeché, os filmes de temática negra, tudo no braço, no voluntariado, sem recurso.
Ela conta que amigos pretos chegam à cidade e perguntam onde estão as pessoas negras. Estão lá, responde, mas na periferia. A violência tem cor no Brasil, e Pirenópolis não é exceção. O que a incomoda é a naturalização: um lugar cheio de história preta e indígena que não a reconhece, com espaços públicos privatizados e memórias apagadas.
“As pessoas pretas de Pirenópolis existem. Mas moram na periferia. A violência tem cor no Brasil.”
Foi indo atrás dessas histórias, com guias e com os mais velhos, que Gil percebeu uma demanda reprimida. Em Pirenópolis há mestres reconhecidos, como Dona Marieta e Seu João Pé de Chumbo, que contam como era o racismo na infância deles. E o que mais dói é a continuidade: o que Dona Marieta viveu, Gil viveu, e a filha de Gil, de vinte e um anos, também.
Ominira: um coletivo de mulheres negras
O coletivo Ominira nasceu de um encontro no Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Gil viu as amigas, que no dia a dia estão de chinelo, chegarem de turbante e bata africana, e se emocionou. Registrou o momento e dali veio a ideia de reunir mulheres pretas para conversar sobre suas histórias, sua situação e as histórias pretas de Pirenópolis.
Desde então, o grupo se encontra regularmente, online e presencial. Fala das estatísticas que gritam, do fato de a mulher preta ser a base da pirâmide, e de como o racismo se agrava quando cruza com outras opressões. Foi nesse espaço, também, que as amigas afirmaram uma recusa importante.
“Não somos morenas. Morena é a Bruna Marquezine. Somos mulheres pretas, mulheres negras.”
O bloco da ação: letramento racial e rede
No segundo episódio, a conversa vira convite e método. O Ominira faz encontros mensais e abertos, com temas como letramento racial: quem quiser participar procura o coletivo nas redes de Pirenópolis e recebe o link. A partir daí, Gil defende uma ideia forte sobre educação.
Para ela, o antirracismo não pode caber só à escola, nem só a novembro. As pessoas negras aparecem só em novembro, as indígenas só em abril, e no resto do ano é como se sumissem, mas o racismo existe o ano inteiro. Educação, aqui, é escola, família e sociedade juntas. E é também rever o próprio olhar: a ciência, a filosofia e a matemática vieram de África, e foi o eurocentrismo que separou corpo e espírito, o que na cultura africana é uma coisa só.
“Não desista do seu sonho.”
“Não é porque você está mais velha, ou muito nova, que você não é capaz, que não tem a força.”
“E, se quiser mudar de profissão, muda também. Vá fazer outra coisa e seja feliz.”
A arte que transforma
Perto dos cinquenta, Gil chegou a achar que não voltaria à arte, que estava acabada, que já não daria para ela. Foi um amigo, Paulo Cabral, quem a impulsionou. E foi ele também quem se recusou a escrever, no lugar dela, a peça sobre mulheres pretas: essa história era dela para contar. Gil escreveu, apresentou com medo, e na primeira apresentação as pessoas choravam.
O projeto foi premiado e circulou por Goiás, Goiânia e Anápolis. Havia quem a abraçasse sem conseguir falar, quem dissesse que a peça tinha mudado a forma de ver o mundo, o racismo, o preconceito. Foi ali que ela teve certeza de que a arte chega onde a palavra não alcança, e que pode, sim, transformar.
“Essa peça mudou minha vida, mudou a forma de ver o mundo. Vi que a arte pode provocar mudança.”
E é a rede que a sustenta nessa empreitada difícil: o Ominira, o coletivo Malunga, o seu programa de rádio. Como diz Bell Hooks, a educação nasce do amor, e amor, aqui, é dar base e estrutura para que a outra brilhe, independente de você. Ser mulher preta, diz Gil, é criar novos mundos. A arte é transformação, e a transformação é autonomia.
Assista aos episódios
Episódio 83 • Arte Preta, Educação e Corporalidade, com Gil Tobias (Parte 1) Episódio 84 • Arte Preta, Educação e Corporalidade, com Gil Tobias (Parte 2)Sua marca pode apenas comunicar. Ou pode assumir um compromisso.
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