Onde foi parar o amanhã? por Ana Saragossa|Crônicas Feministas

Onde foi parar o amanhã? | Crônicas Feministas | ACCA
Crônicas Feministas · ACCA
Ana Saragossa
Ana Saragossa
Colaboradora · Crônicas Feministas

Onde foi parar o amanhã?

Nos anos 2000 o futuro parecia uma promessa. Hoje, às vezes, parece só cansaço.
19 de junho de 2026 Crônicas Feministas ACCA

Às vezes eu tenho a sensação estranha de que o futuro da nossa adolescência foi uma propaganda enganosa.

Nos anos 2000, o futuro parecia bonito. Não perfeito, mas bonito. Existia alguma coisa no ar que fazia a gente acreditar que o mundo estava caminhando para um lugar melhor. Os filmes tinham cidades iluminadas, os comerciais falavam sobre tecnologia como se ela fosse aproximar as pessoas, e crescer parecia uma aventura. Como se virar adulto significasse finalmente entrar naquele mundo brilhante que prometeram para a gente.

Hoje eu entendo coisas que naquela época passavam longe da minha compreensão. Entendo os processos de globalização sobre os quais Milton Santos alertava: esse meio técnico-científico-informacional movido pela lógica da acumulação. Entendo que grande parte da tecnologia nunca foi construída para sustentar um futuro melhor, mas para acelerar consumo, produtividade e lucro.

Sei disso agora.

Mas nos anos 2000 eu ainda não sabia.

Talvez exista uma tristeza silenciosa em perceber que a infância acreditava em progresso enquanto o mundo já negociava tudo em nome do capital.

O futuro chegou com notificações, burnout, remédios para ansiedade e depressão, e uma solidão tão grande que às vezes parece física, mesmo quando existe alguém ao nosso lado.

Outro dia encontrei um MP3 antigo dentro de uma gaveta. Pequeno, vermelho, arranhado nas bordas. Fazia anos que eu não via um daqueles. Fiquei segurando ele na mão por alguns minutos, tentando lembrar como um objeto tão simples já tinha parecido o auge da modernidade.

Naquela época, colocar músicas num MP3 significava escolhas. Existia intenção nas coisas. A gente passava horas baixando músicas, organizando pastas, decidindo o que merecia ocupar aquela memória minúscula. E talvez, sem perceber, a gente fazia a mesma coisa com a vida: guardava momentos com mais cuidado.

Hoje tudo fica salvo em nuvens infinitas e, ainda assim, parece que nada permanece.

Movida pela nostalgia, procurei fotos antigas tiradas por câmera digital: encontrei poucas. Tinham qualidade ruim, flash estourado, alguém cortado no canto da imagem. Mesmo assim, existe uma vida ali que parece mais real do que muita coisa hoje. O sorriso era franco. As pessoas ainda não estavam performando felicidade o tempo inteiro. Ninguém pensava em engajamento. Ninguém transformava cada momento em vitrine.

A internet ainda parecia uma descoberta. Tudo era lento, mas existia paciência para esperar. Talvez a internet discada tenha ensinado minha geração sobre isso: espera.

Também tinha alguma coisa inocente em esperar alguém entrar no MSN. Em personalizar o Orkut como se aquilo dissesse alguma coisa sobre quem a gente era. Em baixar música escondido na madrugada e ouvir o mesmo álbum durante meses porque as coisas ainda tinham tempo de permanecer.

Hoje tudo passa rápido demais.
  • As coisas.
  • As pessoas.
  • Os amores.
  • Os assuntos.
  • As dores.

Parece que a humanidade inteira entrou numa esteira infinita e agora ninguém mais consegue descer.

E o mais assustador é que conseguimos quase tudo. A tecnologia avançou exatamente como disseram que avançaria. Carregamos no bolso aparelhos capazes de fazer coisas que pareceriam ficção científica vinte anos atrás. Podemos falar com alguém do outro lado do planeta em segundos. Existe inteligência artificial, carros elétricos, casas automatizadas, algoritmos que sabem o que queremos antes mesmo da gente perceber.

Hoje a sensação é de que aprendemos a acelerar tudo, inclusive nós mesmos. Eu acho que o trem desandou quando começamos a confundir a conexão frívola dos aplicativos com presença. Quando virou normal jantar olhando para telas. Quando o silêncio ficou insuportável. Quando o descanso começou a dar culpa. Quando sentir virou desperdício de tempo.

Talvez tenha acontecido devagar. Ou talvez não.

Talvez a humanidade não tenha se perdido em uma grande tragédia histórica, mas em pequenas ausências acumuladas. Na última vez que alguém bateu na porta sem avisar. Na última conversa longa sem celular na mesa. Na última vez que olhamos para o céu sem precisar fotografar.

Às vezes eu queria voltar no tempo só para observar aquela versão antiga do mundo mais uma vez.
  • Andar numa locadora.
  • Entrar numa lan house.
  • Ouvir o barulho da conexão da internet.
  • Ver pessoas existindo sem a obrigação de transformar a própria vida em conteúdo.

Talvez eu não sinta saudade do passado em si.

Talvez eu sinta saudade da esperança que existia nele.

Porque nos anos 2000 o futuro parecia uma promessa.

E hoje, às vezes, parece só cansaço.

🎤 Destrave seu Medo de Falar em Público

Encontro presencial · 27 de junho, 15h · Goiânia · entrada gratuita
Selo Marca Aliada
Realização do encontro Destrave seu Medo de Falar em Público

No dia 27 de junho acontece o encontro Destrave seu Medo de Falar em Público. Uma experiência criada para mulheres e pessoas LGBTQIAPN+ que desejam fortalecer sua comunicação, ampliar sua confiança e transformar sua voz em uma ferramenta de autonomia, oportunidades e geração de renda. Mais do que aprender técnicas de oratória, será uma experiência prática, acolhedora e transformadora.

📌 Data: 27 de junho

📌 Horário: 15h

📌 Local: Holanda Centro de Educação Musical – Premium Música e Saúde

📌 Entrada gratuita mediante inscrição pelo Sympla

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Realização: Plataforma Autonomia Com Elas e ACCA, Associação Cultura, Cidade e Arte.
Marca Aliada da ACCA: Holanda Centro de Educação Musical – Premium Música e Saúde.

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