O amor antes de sábado por Eguimar Felício | Crônicas Feministas

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Eguimar Felício Chaveiro
Professor da UFG · Doutor em Geografia Humana

O amor antes de sábado

Por Eguimar Felício Chaveiro
06 de março de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Um sábado pode dividir o mundo. Antes dele, o amor. Depois dele, a dor que atravessa a história.

Imaginem essa situação: a mãe e o pai, embora com diferenças de gênero, de personalidade e de temperamento, souberam se ajustar na causa maior, o amor pela filha. Filha única do casal. Essa que, sob a palavra do grupo da escola, é denominada “a diferentona”.

A moça, com 18 anos, calada, ensimesmada, tomada de paixão pelo primeiro namorado, é alvo da observação sensível e amorosa da mãe: “o que está acontecendo com a minha filha?”.

O namorado tem o olhar crispado, os gestos ansiosos, a fala seca. A impaciência toma-lhe o corpo. O pai, pressionado pelo medo do desemprego, tenta justificar: “eu amo minha filha”.

O amor corre como mar nas veias. Mas o medo também.

No sábado, a filha anuncia que dormirá na casa do namorado. Vai. Não volta. Passa a integrar a estatística do feminicídio no Brasil.

Esse sábado dividiu o mundo. Antes havia amor. Depois, apenas dor, insônia, culpa e a pergunta que sangra: “por quê?”.

A violência contra mulheres no Brasil remonta à origem do país. O estupro colonial, a escravidão e a formação patriarcal estruturaram uma moral cicatrizada.

Colonização, latifúndio, cristianismo armado e violência formam um mesmo processo histórico. Sem ler esse processo, não se explica o presente.

A moral nacional carrega feridas que não cicatrizam sozinhas.

O sábado dividiu o mundo do casal em dois hemisférios: antes, o amor; depois, a luta contra o desespero.

A pergunta permanece: por que estão matando as mulheres no Brasil?

Talvez a missão seja fazer o amor ocorrer depois do sábado.

Mini bio

Eguimar Felício Chaveiro é professor titular da Universidade Federal de Goiás (IESA/UFG). Doutor em Geografia Humana (USP), com pós-doutorado em Saúde do Trabalhador (Fiocruz). Atua nas áreas de território, saúde, trabalho, cultura, literatura e cartografias existenciais.

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