Marlinda: a mulher que guardava universidades no avental por Aline Marques| Crônicas Feministas

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Aline de Fátima Marques
Geógrafa, feminista e doutora

Marlinda: a mulher que guardava universidades no avental

Por Aline de Fátima Marques
12 de junho de 2026 Crônicas Feministas ACCA
Uma mulher que trabalha, cuida, inventa tempo e guarda, no avental, universidades inteiras que ainda precisam caber na vida.

Quarta-feira, no final do dia, ao sair do trabalho encontrei uma amiga que não a via a tempos. Cumprimentou-me com o semblante cansado, mas com ar de esperança. Conversamos sobre sua vida exaustiva e sobre seus sonhos. Chama-se Marlinda. Esse nome, com uma sonoridade alegre e forte, não dá conta dela. Porque Marlinda carrega dentro de si uma multidão de coisas invisíveis: contas por pagar, roupas para lavar, filhos para criar, cansaços antigos e sonhos que se recusavam a morrer. Toda manhã, antes do sol lembrar que precisa nascer, Marlinda está de pé. Há café para passar, lanche para organizar, uniforme para encontrar, louça esquecida na pia da noite anterior. Seu relógio não marca horas; marca urgências.

Ela sai sempre correndo para o trabalho. Quarenta horas semanais registradas no contrato. Mas a vida sabe que são mais. Bem mais. Porque ninguém contabiliza as horas gastas preocupando-se com o filho febril enquanto se está numa reunião. Ninguém paga pelas horas em que uma mulher continua trabalhando dentro da própria cabeça, tentando fazer caber o impossível dentro de um salário. Marlinda volta para casa trazendo o corpo cansado e a alma acordada. Essa é a sua contradição. O corpo diz: "Descanse. A alma diz: "Estude. "Ela quer uma faculdade. Depois vai querer um mestrado. Depois um doutorado. Não porque deseja títulos para pendurar na parede. Deseja conhecimento da mesma forma que algumas pessoas desejam respirar.

O corpo pede descanso. A alma insiste em estudar.

Há perguntas dentro dela que ainda não têm resposta. Há uma sede silenciosa que não se apaga. Às vezes, enquanto esfrega uma panela, imagina-se numa biblioteca. Enquanto dobra roupas, imagina-se escrevendo uma dissertação. Enquanto organiza a mochila dos filhos, imagina-se defendendo uma tese. É uma mulher que carrega universidades inteiras dentro do avental. Mas os caminhos não são iguais. Nunca foram. Algumas pessoas nascem diante de portas abertas. Outras passam a vida aprendendo a fabricar chaves. Marlinda pertence ao segundo grupo. Ela vê colegas mais jovens, sem filhos, sem preocupações financeiras, dedicando-se exclusivamente aos estudos. Não sente inveja. Sente apenas a estranha consciência de que a corrida começa em lugares diferentes.

Enquanto alguns recebem apoio, ela recebe cobranças. Enquanto alguns ganham tempo, ela precisa inventá-lo. Enquanto alguns encontram incentivos, ela encontra perguntas:

Enquanto algumas pessoas ganham tempo, outras precisam inventá-lo.

— Mas para que estudar tanto?

— Você já não trabalha?

— Quem vai cuidar da casa?

Perguntas que raramente são feitas aos homens. Porque há ainda quem acredita que uma mulher nasce para servir. Servir ao marido. Servir à família. Servir aos desejos alheios. Como se sua existência fosse um corredor levando sempre para a vida de outra pessoa. Marlinda nunca soube responder a essas pessoas. Ela até tem argumentos, mas, certas ideias são tão antigas que parecem feitas de pedra. E não se discute com pedras. Contorna-se. Segue-se adiante. O curioso é que ninguém vê seu esforço. Marlinda salva terças-feiras. Salva contas vencidas. Salva o jantar. Salva a esperança. Salva o gás de cozinha que acaba, muitas vezes, à noite na hora do jantar e ninguém se dispõe a comprá-lo, repor, trocar aquele botijão. E faz isso sem reconhecimento.

Perguntas que raramente são feitas aos homens.

Há uma espécie de coragem que não faz barulho. Ela apenas continua. Essa coragem que mora nela. Algumas noites, depois que todos dormem, Marlinda abre um livro. Os olhos ardem. O corpo reclama. Mas ela continua lendo. Uma página. Depois outra. E mais uma. Porque compreende algo que nem todos compreendem: estudar não é um luxo. Talvez seja. É, acima de tudo, para ela, uma forma de existir. É uma declaração silenciosa de que sua vida não termina nas tarefas que realiza para os outros. Ela também pertence a si mesma. Talvez nunca teria as mesmas oportunidades que os mais ricos. Talvez nunca teria as mesmas facilidades oferecidas aos homens por uma sociedade que tantas vezes transforma seus privilégios em méritos. Mas há algo que ninguém pode lhe retirar: a direção do seu olhar.

Há uma coragem que não faz barulho. Ela apenas continua.

Marlinda olha para frente. E quem olha para frente começa a atravessar o caminho. Penso nela agora, em Marlinda, e percebo que algumas mulheres carregam uma muralha inteira nas costas e continuam caminhando. Lentamente. Exaustas. Às vezes chorando. Mas caminhando. E talvez a verdadeira revolução não aconteça quando Marlinda receber seu diploma de graduação, seu mestrado ou seu doutorado. Talvez a revolução tenha começado muito antes. No instante em que ela ousou acreditar que sua inteligência tinha o mesmo direito de florescer que a de qualquer homem. No instante em que decidiu que servir aos outros não significa abandonar a si mesma. No instante em que, apesar de tudo, continuou sonhando. Porque há sonhos que não são frágeis. Há sonhos que trabalham quarenta horas por semana, lavam louça, ajudam nas tarefas escolares dos filhos, fecham as contas do mês, coloca comida na mesa, e, ainda assim, encontram forças para abrir um livro antes de dormir, muitas vezes durante toda a madrugada. E esses sonhos, justamente por conhecerem o peso do mundo, aprendem a resistir. Como Marlinda. Como tantas mulheres.

Algumas mulheres carregam muralhas inteiras e, ainda assim, seguem caminhando.

Como uma chama pequena que ninguém percebe, mas que insiste em permanecer acesa até transformar a própria escuridão em luz. Marlinda precisa agora de oportunidades. As mesmas que são tão favoráveis aos homens.

Mini bio

Aline de Fátima Marques é geógrafa, feminista e doutora.

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Concepção e realização: ACCA · Plataforma Autonomia Com Elas
ACCA — Associação Cultura, Cidade e Arte culturacidadeearte.org
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