O Corpo que Poetiza, a Arte que Transforma com Thaíse Monteiro|Do Estúdio ao Blog

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O Corpo que Poetiza, a Arte que Transforma

Com a multiartista Thaíse Monteiro, conversamos sobre viver da arte como direito, a precarização do trabalho cultural e a força do coletivo como caminho de autonomia. Porque viver da arte também é um ato de justiça social.

Convidada: Thaíse Monteiro Série: Autonomia Feminina 28 de junho de 2026

Por que viver da arte é assunto de autonomia

Os números dizem muito. No Brasil, menos de 30% das obras literárias publicadas são escritas por mulheres. No teatro, elas são maioria nos grupos independentes, mas recebem cachês até 30% menores. Na cultura popular, 70% das mulheres que criam não têm acesso a políticas de fomento. E, ainda assim, elas não param.

Neste episódio, Márcia Pelá recebe Thaíse Monteiro, multiartista: escritora, atriz, performer, palhaça, vocalizadora de poesia, produtora cultural, doutora em estudos literários e vencedora do primeiro Prêmio RevelArtes Mulheres em Cena, da ACCA. Uma mulher que vive da arte, e que faz disso uma forma de existir inteira.

“A autonomia feminina também é poder viver da arte: é o direito de existir inteira, de sustentar a própria voz, de transformar ausência em presença.”

Multiartista por potência, e por necessidade

Há três anos, Thaíse deixou a sala de aula, onde atuava como professora formada em Letras, para se dedicar à arte. Uma escolha difícil, sem renda fixa, que ela e Márcia reconhecem como parecida: largar o estável para não adoecer. Transitar por literatura, teatro, cinema e música não é só talento; é também resposta à precarização, que obriga a artista a acumular funções, da criação à produção e à assessoria.

“A urgência da vida, as contas, a sobrevivência batem todos os dias na porta.”

O ponto que ela e Márcia sublinham é estrutural: a lógica desta sociedade nos faz adoecer. Trocar o salário certo pela arte não é desapego; é coragem diante de um sistema que desvaloriza quem cria.

Do varal ambulante à biblioteca sobre rodas

A história de Thaíse começa com a poesia, sem nenhuma perspectiva de publicação. Para fazer o poema chegar às pessoas, ela imprimia, recortava e pendurava os versos com prendedor numa saia de crochê: era o “varal ambulante”. Vendia poesia em bares, festivais e nas ruas de Goiás Velho. O artista vai aonde o povo está, e dessa itinerância nasceram a biblioteca sobre rodas e, mais tarde, o duo com Renê, que une música e poesia e foi aprovado no projeto Claque.

“Quando você está num ponto fixo, as pessoas têm que vir até você. Eu escolhi caminhar.”

Arte como sobrevivência, e como renascimento

Seu livro mais recente, Tanatose ou breve estudo das necessidades do fim (o sexto, pela editora independente Urutau), nasceu num momento difícil. Tanatose é a capacidade de alguns animais de fingir-se de morto para se defender. O livro, diz ela, a manteve viva e produzindo.

“Gosto de pensar a arte como forma de sobrevivência. E não só financeira: de renascimento, de ressignificação da dor.”

O bloco da ação: fazer, sem medo de errar

No segundo episódio, a conversa vira prática. E o conselho de Thaíse não promete fórmula mágica.

Autonomia Feminina • Ação
Conselho de palco

“Em primeiro lugar, é fazer. Ação, sem medo de errar.”

“Fazer diariamente, apesar das dificuldades.”

“Procure pessoas que também fazem, para trocar. Quem já passou pode dizer: por aqui não, vai por ali.”

Fazer, aqui, não é receita de coragem individual. É troca: encontrar quem já trilhou o caminho encurta o caminho de quem chega. A arte que sustenta uma mulher quase nunca se faz sozinha.

Coletividade, não disputa: a força de fazer junto

Thaíse aprendeu isso na Oficina Cultural Gepeto, com Marcos Lotufo, uma escola de fazer e de coletividade. De lá vem a Galhofada, que começou como pequena mostra de teatro de rua e cresceu até reunir mais de duzentos artistas, sem remuneração nem incentivo, organizada de forma coletiva: um busca o alvará, outro consegue a lona do circo, outro cuida da divulgação.

“A força do coletivo, do não individualismo e do não disputar. Sororidade e solidariedade fazem diferença na vida de quem está começando.”

É o mesmo princípio que move a parceria com Renê: mais gente é mais olhos. Com dois olhos a gente vê uma coisa; em quatro, em seis, em oito, a gente amplia a visão e alcança o que sozinha não alcançaria.

Autonomia é, sobretudo, liberdade

Para as juventudes que ouvem “isso não dá dinheiro”, Thaíse lembra que arte é trabalho, igualmente trabalho, e que a desvalorização adoece. A quem tem vontade, habilidade e desejo, ela diz: continue, e procure os coletivos, que existem em todo bairro. Ter referência muda tudo, porque mostra que a gente não está só.

“Autonomia, para mim, é sobretudo liberdade. O preço da liberdade é caro, mas vale.”

É por isso que a ACCA insiste nessa pauta. Viver da arte, sustentar a própria voz e transformar ausência em presença não é privilégio de poucas: é um direito, e um ato de justiça social.

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