10 minutos de silêncio
“Soluções tecnológicas para problemas complexos, não são avanços, são retrocessos.”
Essa foi uma das frases que circularam no seminário final do curso “Formação de diretores escolares para a escuta: cartografias existenciais de Pessoas com Deficiência em escolas públicas do estado da Paraíba”, na última sexta de novembro, na Universidade Federal da Paraíba. Abordo, nesta crônica, a relação entre escola, tecnologia e sofrimento.
Numa aula remota, no mencionado curso, o professor Rodrigo Emídio lançou algo mais ou menos assim:
Da pergunta do Rodrigo, salto — no tempo e no espaço — para a resposta de um professor cubano quando indagado se houve crescimento dos diagnósticos de transtornos mentais em Cuba:
E aí, senhora escola?
Novas formas de sofrimento (Dunker, 2020) habitam os pátios, salas e corredores escolares. Esta é a sociedade do desempenho (Han, 2015). O excesso — de impulsos, atividades simultâneas, autocobranças, incertezas —, camuflado de suposta liberdade, potencializa o sentimento de incompetência, fracasso, inadequação, FOMO (fear of missing out).
Panóptico digital. Ninguém escapa: estamos, precisamos e queremos ser vistos. Storytelling. Fragmentos. De vida, de linguagem, de afeto. Burnout. Frases curtas. Frases. O ar se esvai, afogados no mar de nós mesmos. Mesmo, muito mais do mesmo. Depressão narcísica.
Há a contemplação criativa — aquela que produz a ira (distinta da irritação). Há lugar para a demora. Há lugar para o Outro. Finalizo com o exemplo da Escola dos Sonhos.
Esta escola comunitária, no brejo paraibano (Bananeiras), é inusitada em vários aspectos, o que já lhe rendeu uma reportagem na Globo e alguns patrocinadores. De tudo o que vi lá, algo me chamou mais atenção: os dez minutos de silêncio.
Em dois momentos do dia, as crianças se sentam no pátio da escola, onde não se tem nada a observar. Nestes dez minutos, todos devem ficar em silêncio, sem celular. Podem se olhar, abaixar a cabeça, permanecer sentados, deitar ou fechar os olhos. Muitos se olham compenetradamente. A naturalidade com que crianças (agitadas!) vivenciam os dez minutos de silêncio intriga os visitantes.
O fato é que esta desintoxicação digital foi a ação mais inteligente (e inovadora) que vi nas escolas por onde andei nos últimos 5 anos.
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