Masculinidade: Desejo e Violência
Com Henrique Lopes, discutimos por que a violência não é “instinto”, como o desejo se organiza no inconsciente e por que reconhecer é mais efetivo do que negar.
Por que falar de masculinidade quando o tema é autonomia feminina
A autonomia feminina não existe em um vácuo. Ela é atravessada por estruturas, violências e modelos de poder que afetam o corpo, o desejo e a vida cotidiana. Quando a violência se naturaliza, ela vira destino. Quando ela é compreendida, ela pode ser interrompida.
Neste episódio, Márcia Pelá conversa com o psicanalista e escritor Henrique Lopes sobre desejo, pulsão e violência na masculinidade contemporânea. O ponto central é duro e necessário, a violência tem componente simbólico e, por isso, ela é profundamente humana.
“O homem não fala sobre sofrimento.”
Instinto não explica, o que entra no lugar é a pulsão
Henrique desmonta um argumento comum: “homem é assim por instinto”. Se fosse instinto, seria programado, automático, como acontece no reino animal. Mas a violência humana não é apenas agressividade de sobrevivência, ela inclui abuso, dominação, humilhação, apropriação do corpo e da vida do outro.
Pulsão é um conceito para pensar essa energia que circula no corpo e busca satisfação para além do biológico. A gente não come só para matar a fome, a gente come com os olhos, com o cheiro, com o excesso, com a culpa. E depois repete.
Violência, quando o símbolo entra em cena
O episódio insiste num ponto que incomoda porque é verdadeiro: violência não é “animalidade”. É produção simbólica. Ela aparece quando o sujeito se sente ofendido, humilhado, diminuído e tenta “resolver” isso destruindo o outro. Não resolve. Em muitos casos, a violência retorna para si.
“Quanto mais a gente quer manter distante esse potencial, mais perigoso é.”
O que o outro desperta em mim, desejo, ódio e projeção
Uma das chaves da conversa é reconhecer que o outro não é só “o problema”: muitas vezes, o outro desperta algo em mim que eu não quero sentir. E, quando não se suporta o próprio desejo, vira-se contra o outro, mulher, gay, pessoa negra, quem foge da norma.
Por isso, negar não resolve. Negar só empurra para a prática inconsciente. Reconhecer é um primeiro passo para fazer algo diferente, com responsabilidade.
O bloco da ação, conselhos práticos, sem romantização
No segundo episódio, a conversa vira ação: como lidar com impulsos intensos sem descarregar no outro. A ideia é simples: falar não é fazer. Nomear não é agir. A palavra pode ser um caminho de elaboração.
“Se leve menos a sério.”
Nem tudo é sobre você. Nem tudo está ofendendo sua masculinidade.
Faça atividade física. Vai dançar. Descarrega essa energia em outro lugar que não na pessoa.
E tem mais: atividade física, dança, deslocamento da energia para lugares que não sejam o corpo do outro. Não é solução mágica, é cuidado mínimo para não transformar mal-estar em violência.
Escrita, poesia e elaboração, quando o horror vira linguagem
Henrique também fala da escrita como um destino possível para a agressividade: diário, poesia, palavra. Sublimar não dá conta de tudo, mas pode abrir um intervalo entre sentir e agir.
Esse intervalo é político. É civilizatório. É uma forma de impedir que o mundo vire apenas descarga.
🎧 Episódios do Programa
Episódio 71, Masculinidade: Desejo e Violência com Henrique Lopes Episódio 72, Masculinidade: Desejo e Violência com Henrique Lopes🌱 Sorteio Colmeia, já está valendo
Em junho, a ACCA aposta na renda como caminho de autonomia e apresenta sua primeira Marca Aliada, a Unidade de Produção Agroecológica Colmeia, UPAC, no Assentamento Canudos, na região entre Palmeiras de Goiás, Guapó e Campestre de Goiás. Integrada ao MST, a Colmeia é uma iniciativa de agricultura regenerativa e agroecologia, referência regional na produção de alimentos sem agrotóxicos. Ali, produzir alimento é também gerar renda no território, porque renda e território são condição coletiva, não meta individual. Uma mulher da nossa comunidade vai receber uma cesta agroecológica produzida por lá.
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