Da mitologia grega ao litoral norte de São Paulo: a mulher que o mar não levou por Alexandre Machado Rosa | Crônicas Feministas

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Da mitologia grega ao litoral norte de São Paulo: a força do mito e da força feminina

A perplexidade da ciência, a linguagem do mito e a sobrevivência que parece contrariar a lógica implacável do corpo.

Autor: Alexandre Machado Rosa Professor do IFSP: Doutor em Saúde Coletiva 05 de junho de 2026

A notícia do resgate com vida de Bruna Damaris Sant’anna da Silva, de 26 anos, após permanecer cerca de 42 horas à deriva no mar em Ilhabela, no litoral norte de São Paulo, surpreendeu médicos, pesquisadores da saúde e qualquer pessoa minimamente familiarizada com os limites do corpo humano. O frio intenso aumenta drasticamente os riscos de hipotermia, arritmias cardíacas, confusão mental, desidratação e afogamento. A lógica biológica, diante de um cenário assim, costuma ser implacável.

Mas existem acontecimentos que parecem escapar da racionalidade objetiva e nos empurram para territórios mais antigos da experiência humana: o mito, a tragédia, o destino e aquilo que os gregos chamavam de intervenção divina.

O limite da morte e a possibilidade de interferir no caminho

Na mitologia grega, os deuses olímpicos não podiam abolir a morte. A morte pertencia à ordem do cosmos, ao destino inevitável dos mortais. Nem mesmo Zeus possuía autoridade absoluta para anulá-la. Mas os deuses podiam interferir no caminho até ela. Podiam proteger, atrasar, desviar rotas, criar circunstâncias improváveis e oferecer aos homens e às mulheres oportunidades inesperadas de sobrevivência.

Os deuses do Olimpo eram chamados de athanatos, os sem morte. Não envelheciam como os humanos e não possuíam sangue comum correndo nas veias, mas sim o icor, substância etérea associada à imortalidade. Já os mortais permaneciam submetidos ao tempo, ao sofrimento e ao destino.

Hera, Afrodite e a complexidade do poder

Costumamos lembrar Zeus como soberano do Olimpo, mas a cosmologia grega era mais complexa do que a simples centralidade masculina do poder. Hera, rainha dos deuses, não era apenas esposa de Zeus. Era uma das grandes divindades do panteão, associada à proteção, à ordem e à preservação dos vínculos que sustentam a vida humana. Sua presença lembrava aos gregos que o poder não se sustentava apenas pela força, mas também pela capacidade de cuidar, proteger e garantir a continuidade da existência.

Também Afrodite ocupava um lugar muito mais profundo do que a caricatura moderna da deusa do amor. Surgida das espumas do mar, ela simbolizava a potência da vida que emerge mesmo em meio ao caos. Representava a força vital que insiste em florescer diante da dor, da guerra e da morte, reafirmando a existência quando tudo parece apontar para a destruição.

O submundo, a fronteira e a rota improvável

O submundo pertencia a Hades, senhor dos mortos, guardião da fronteira que separava a vida daquilo que existe para além dela. Nem mesmo os olímpicos atravessavam essa fronteira sem reconhecer sua autoridade.

O episódio de Bruna Damaris parece saído diretamente dos cantos de Homero ou das tragédias de Ésquilo, Sófocles e Eurípides. Não apenas pela luta humana contra a morte em meio às forças da natureza, mas sobretudo pelo elemento decisivo da narrativa: um pescador experiente da região, acostumado há anos a seguir determinada rota marítima, decide, sem razão aparente, mudar o trajeto naquele dia. E justamente essa alteração improvável permitiu que Bruna fosse encontrada viva.

Na tradição grega, esse tipo de acontecimento dificilmente seria interpretado como mero acaso. Talvez Hermes, o mensageiro dos deuses e protetor dos viajantes, tivesse conduzido discretamente o olhar do pescador para um ponto improvável do horizonte. Talvez Hades já observasse a aproximação de mais uma alma ao seu reino, apenas para vê-la escapar no último instante. Ou talvez Hera e Afrodite, cada uma à sua maneira, representassem simbolicamente a persistência da vida diante da proximidade da morte.

Moira, perplexidade e a pergunta final

Os gregos chamavam de moira aquilo que está tecido para cada vida. Em torno dela orbitavam os grandes temas da tragédia clássica: o orgulho humano, a fragilidade da condição mortal, os limites da razão, o peso do destino e as intervenções inesperadas das divindades.

Talvez a modernidade tenha desaprendido a linguagem simbólica dos mitos. Hoje explicamos o mundo por probabilidades, estatísticas e causalidades materiais. E elas são fundamentais. Mas há episódios que continuam produzindo em nós a mesma perplexidade dos antigos diante do mar, do céu e da morte.

Porque existe algo profundamente humano em perguntar, diante de certos acontecimentos improváveis: foi apenas coincidência? Ou Hera manteve acesa a chama da vida? Ou Afrodite, surgida das águas, recusou-se a abandonar uma jovem à deriva? Hermes conduziu um olhar para o lugar certo? Hades aguardou mais um pouco?

Ou talvez a extraordinária capacidade humana de sobreviver tenha encontrado, naquele instante, uma rara convergência entre destino, coragem e acaso.

O que pensar, Zeus?

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